sábado, 9 de outubro de 2010

Antes


Rapidamente, todos se reuniram no centro da cidade desértica, onde agora estava o líder do bando de mãos dadas com a misteriosa mulher, chamada Jaquiel, mas isso não era do conhecimento de todos ali. Ele segurava na mão direita uma lança comprida com uma lâmina estranha e tosca, enquanto ela carregava na cintura duas espadas, uma de lâmina fina e comprida, quase tocando o chão e a outra de lâmina mais larga e curta, chegando à altura do joelho. As roupas de cores escuras, com exceção de uma peça ou outra, eram simples e não forneciam grande proteção, mas mesmo assim, não utilizavam nada além disso.
Ambos altos e morenos, de cabelos negros e olhos desafiadores, olhavam agora sorridentes para todos a sua volta. O porte altivo de ambos fazia com que parecessem reis, prestes a um anúncio muito importante. No entanto, não possuíam sangue nobre e muito menos desejavam isso ou invejavam aos reis, muito pelo contrário. Não serviam a rei algum e eram caçados por vários, mas mesmo assim, eram quase que venerados pela hoste que lhes seguia.
                O que eles precisavam falar agora, no entanto, traria dor e sofrimento mais tarde. Eles sabiam disso e todos ali presentes também, antes mesmo de qualquer palavra ser pronunciada.  Com todos atentos aos seus rostos e ansiosos por suas palavras, eles disseram em uníssono:
                -Irmãos! Hoje a Morte dança ao nosso lado! Vamos acolhê-la bem e indicar os melhores parceiros para sua valsa final.
                Aqui, apenas ele continuou falando, enquanto a dama se afastou enquanto dobrava um pequeno pedaço de pano até ficar do tamanho exato para cobrir seus olhos.
                -Alguns de nós não irão comemorar a vitória amanhã, talvez eu mesmo seja um deles. Porém, sairemos vitoriosos e aqueles dos nossos inimigos que fugirem com vida, contaram nossas façanhas para toda gente. Nosso inimigo se aproxima escondido com artimanhas e feitiços. Vamos mostrar para ele que nada pode fugir a fúria de uma tempestade do deserto!
                E mais uma vez todos bradaram confiantes, sem medo no coração e novamente o chão tremeu. Mas não pela última vez naquele dia. Mas pela última vez antes da luta, ele falou a seus companheiros.
                -Tragam os barris – ele disse para alguns homens próximos e essas foram as últimas palavras para eles antes da luta.

Prisão


Longe do calor do deserto, muito abaixo da superfície e longe de qualquer luz, ela é mantida prisioneira. As feições nobres e o sorriso que abalaram o sonho do guerreiro, não podem ser mais vistos. Por muito tempo ela esteve na escuridão e ela agora começava a tomar conta de seu coração. Sua mente, porém, continuava ativa e seus pensamentos eram claros como a água. O tempo de ficar ali havia acabado. Era hora de sair.
Seu pensamento o tempo todo procurava um jeito de escapar, mas a fome, a sede e o terror da escuridão não deixavam nenhum pensamento tomar forma. Mas por muito tempo permaneceu ali e as trevas não mais lhe amedrontavam. O corpo se acostumou com a comida pobre e escassa e a fome não lhe atormentava mais como antes. A pouca água que recebia, tomava aos poucos e mesmo sendo tendo gosto terrível, era o suficiente para matar a sede e ao passar do tempo, inclusive sobrava um pouco ao final do dia.
O movimento das águas lhe despertou lembranças de dias mais felizes, onde muito havia a ser ensinado e aprendido, e o tempo corria lentamente sob o sol ameno. Dos elfos era ela e da água eles vinham e a reverenciavam, pois em todo lugar ela está presente. Tal era sua ligação com a água, que, aos poucos, aprenderam a entrar em sintonia com ela e os espíritos que nela habitam. Assim, em uma conversa íntima que não necessita de palavras, esses pequenos espíritos podem tomar forma e interagir com quem lhes convocou.
Lembrando disso, ela juntou água durante dias em uma vasilha escondida no canto mais escuro da cela e já podia sentir a presença de algo ali. Não era como os espíritos alegres e joviais que encontrava nos riachos das florestas, mas triste e melancólico. Um ser poluído, assim como a água que habitava.
Enquanto estava absorta em seus pensamentos, não notou a chegada do carcereiro. Ele trazia a comida e a água da prisioneira, e vendo a expressão distraída dela, anunciou a sua chegada de modo zombeteiro.
-Ó, princesa Sophia, aqui está seu majestoso banquete.
Disse isso se curvando numa falsa reverência e riu alto da própria piada, e sua gargalhada era como uma revoada de corvos barulhentos. Sophia, entretanto, olhou-o dos pés a cabeça e se perguntou se realmente era ela que estava sendo mantida aprisionada. Ele se vestia como um maltrapilho, sujo e mal cuidado. Mas o pior de tudo era o cheiro. Fedia como se nunca tivesse usado água a não ser para beber. Enojada da aparição dele, apenas respondeu brevemente, para que deixasse logo a comida e fosse embora.
-Meus pais estão mortos, não sou mais princesa e sim rainha.
Essas palavras lhe causavam grande dor no coração, mas era a verdade e como uma rainha, não pode ser fraca e deixar seu povo lhe esperando. Estendeu as mãos para a comida e a água que ela tanto ansiava. E as recebeu, ainda ao som da risada incômoda e, dessa vez, escutou palavras que lhe doeram ainda mais, pois essas, não sabia se eram verdadeiras ou apenas mentiras do seu agressor, mas temia pelo pior.
-Do que adianta ser rainha, se não há mais quem governar?
Ao som dessas palavras, ela sentiu o medo dominando sua mente e se encolheu com a perspectiva de que seu povo houvesse sido dizimado. O guarda, ao ver isso, se virou e foi embora sorrindo, subindo o corredor de pedra da masmorra.
Assim que ele saiu da sua visão, Sophia se agarrou ao um pingente que carregava no pescoço suspenso por um fio de prata, praticamente invisível, a única coisa que lhe restava no momento. Esse pingente havia sido feito e entregue, não por nobre elfo, mas por um humilde homem, de espírito valente e coração honrado. Esse homem, ela escolheu para governar ao seu lado assim que chegasse a hora, mas agora, estavam separados e ela não sabia se ele ainda vivia. Mesmo assim, a simples lembrança daquele homem lhe acalentava o coração e pensar no seu rosto espantava o medo de seu coração.
Ela então se recompôs e voltou a pensar claramente para poder levar o plano adiante. Tomou um pouco da água e comeu rapidamente a refeição pobre que lhe davam sem sentir o gosto de nada. Juntou então o restante da água com a que havia tempo estava guardando e começou a palestra com o pequeno espírito. Tinha de ser rápida, pois logo alguém estaria ali para buscar seu prato e essa seria sua chance de escapar. O tempo agora corria.