terça-feira, 14 de agosto de 2012

Crônicas da Nova Era - X


                Ao entrar em casa, ouviu o som de passos rápidos e leves vindo em sua direção e ao se virar, seu irmão pulou nos seus braços, derrubando os dois no chão. As risadas logo invadiram a casa enquanto os irmãos se abraçavam, matando a saudade um do outro. Ralph conseguia, mesmo nos dias mais monótonos de suas explorações, manter a cabeça ocupada, sem pensar na volta para casa, mas ao voltar, não pensava na próxima saída.
                Diferente de quando fazia suas explorações, ao chegar em casa Ralph conversava por horas a fio com seu irmão e sua mãe. Sentado no piso da cozinha, de pés descalços, ele ficava em dia com os assuntos e falava das novidades. Sua mãe se escorava no balcão e seu irmão sentava ao seu lado em um banco de madeira. Os irmãos, não fosse a diferença de idade, o mais novo com cinco anos a menos, seriam gêmeos, tamanha era a semelhança entre eles. A principal diferença estava nos cabelos, que no mais novo caiam até os ombros e ficavam normalmente presos em um rabo de cavalo desajeitado, sempre a ponto de se desfazer. A mãe, de cabelos castanhos e ondulados chegando até o meio das costas, era um pouco mais baixa que Ralph, de feições carinhosas, mas sempre firme em suas decisões. Era alguns centímetros mais baixa que ele, mas seu ar de autoridade ultrapassava em muito qualquer limite imposto pela altura.
                Até tarde da noite eles conversaram e trocaram histórias do tempo que passaram separados. Em certo momento, Ralph colocou a mão no bolso e sentiu algo estranho, que não lembrava de ter colocado ali. Ao olhar o que era, viu uma folha de um verde intenso, igual as que havia visto na praça. Sem pensar duas vezes, chamou a atenção do irmão e entregou-lhe a folha para que guardasse sempre consigo. Ralph não perguntou sobre o pai, pois ele havia saído em uma expedição a mais tempo para investigar um suposto rio muitos quilômetros ao norte. As viagens de ida e volta deveriam durar dois meses cada, mas ele ainda tinha a missão de examinar a extensão, largura, possíveis passagens e tudo mais relacionado ao rio que pudesse ser benéfico para a cidade.
                No outro dia, Ralph levantou tarde, mas renovado, pronto para a próxima missão. Ao acordar, a casa estava vazia, pois sua mãe e irmão acordaram ao nascer do sol para cumprirem suas tarefas, como de costume. Não comeu nada, pois já era quase hora do almoço na cozinha comunitária, e saiu de casa para ver que o sol já estava quase no seu ponto máximo. Enquanto estava na cidade, costumava ficar sempre descalço, mesmo nos meses frios, e dessa vez não foi diferente, porém dessa vez não era apenas força do hábito, mas uma necessidade que ele não entendia bem. Ao sair para a rua de chão batido ouviu chamarem seu nome a alguns metros de distância. Se virou para a voz e reconheceu a irmã de Ian, Kayla, sua amiga desde a infância. Ela era poucos centímetros mais alta que Ralph, com os cabelos compridos negros como os do irmão, porém lisos e bem cuidados, ao contrário do emaranhados de fios do parente. A pele branca, mas não pálida, fazia com que seus lábios vermelhos fossem mais realçados, dando-lhe um ar de mistério e acentuando sua beleza.
                O rapaz caminhou até ela que aguardava escorada na parede de uma casa próxima, com um sorriso travesso. Ela estendeu a mão para que ela a cumprimentasse e quando sentiu o toque dele, puxou-o com força para um abraço apertado que ele recebeu e retribuiu com prazer. Um pouco de calor humano depois de tanto tempo, pensou ele, não é ruim afinal. Eles trocaram notícias e ele ficou sabendo que Ian havia anunciado a todos, na primeira hora da manhã, o trágico destino de Hohl e já estava fazendo os preparativos para a exploração da cidade subterrânea, sendo ele próprio o líder da campanha. Eles passaram o almoço juntos e à tarde ele a acompanhou até a oficina, enquanto ela fazia ajustes de rotina no robô companheiro de Ralph. Kayla o havia construído e não deixava que ninguém mais o tocasse, tanto pela sua programação quanto pela disposição dos mecanismos internos. Ao final do dia, os consertos e ajustes estavam prontos, e ela passou um último recado de seu irmão: Ralph deveria se apresentar pela manhã no Centro de Informações.

sábado, 4 de agosto de 2012

Crônicas da Nova Era - IX


                Após alguns dias de viagem, chegou de volta ao lugar que chamava de casa. Como sempre, não foi recepcionado por ninguém, todos estavam ocupados com seus afazeres já que o sol ainda estava alto. Isso não lhe incomodou, pois sabia que de um modo ou de outro todos ali arriscavam suas vidas para o bem de todos e ele estava apenas cumprindo seu trabalho. De qualquer maneira, voltar para aquele lugar sempre lhe dava uma sensação de segurança e tranquilidade, pois estava entre amigos e família. A Asa, como o vilarejo era chamado por seus habitantes, podia ser vista de vários quilômetros, pois era situada no topo de uma colina e suas torres de vigilância se erguiam a vários metros com suas potentes luzes a vasculhar o perímetro ao redor da cidadezinha. Uma grade enferrujada cercava a Asa, com dois portões, localizados nas duas extremidades da rua principal, delimitada por diversas casas simples de madeira, todas cinzentas e de um andar. Paralelas à rua principal, duas ruas corriam com acesso para mais casas do mesmo padrão, completando um total de três fileiras de casas para cada lado da rua principal, com as casas das ruas laterais de frente umas para as outras, com as ultimas tendo dois andares e a cerca como limite. Nessas casas a parte traseira não possuía janelas, exceto pelo segundo andar, onde as janelas eram usadas como pontos de observação extra para a aproximação de inimigos.
                A subida para a entrada era ladeada por uma pequena plantação de trigo que circundava a cidade e de onde boa parte do alimento era retirada. Uma reserva subterrânea de água havia sido o principal motivo para as primeiras instalações da Asa naquele local. Com essa água, eles irrigavam a pequena plantação e tinham o que beber. Um pequeno pasto na planície próxima da cidade garantia que houvesse carne de um pequeno rebanho de gado, mantido sempre com um número mínimo de animais para que não houvesse escassez em tempos difíceis.
                Durante o dia, o reflexo dos painéis solares no topo das casas tornava a cidade brilhante quando vista de longe. Os painéis forneciam toda energia necessária para o bom funcionamento da cidade. Durante o dia, pouquíssimas lâmpadas eram ligadas e apenas ferramentas essenciais eram usadas. A energia do dia era acumulada em grandes baterias subterrâneas e então usada para acender os grandes holofotes de vigilância à noite e direcionada também as casas, para proporcionar algum conforto.
                Entrando na cidade, cumprimentou algumas pessoas, mas seguiu sem paradas até a construção que servia como centro de informações. Sendo um misto de biblioteca, laboratório e centro de comunicações, era o cérebro da Asa e todos que faziam reconhecimento ou algum tipo de pesquisa, exibiam seus relatórios ali para análise e arquivamento. Sendo constituída de quatro salas, sendo a principal também a central, tinha todas as paredes revestidas de estantes com livros, mapas feitos a mão e listas com os nomes de todos da cidade e seus afazeres. Em frente a porta de entrada, uma grande mesa com pilhas de relatórios e mapas dava as boas vindas a quem entrava, junto com uma plaqueta onde se lia “Ian Samuel”. Detrás dos papéis, se via os cabelos pretos revoltos do comandante daquele reduto. Ralph bateu continência em frente à mesa para obter atenção para a entrega de seu relatório. Demorado um instante, um homem com cabelos caindo sobre os olhos também pretos e de ar cansado levantou a cabeça, revelando rosto e nariz finos, lábios vermelhos e a pele muito clara de quem se expõe pouco ao sol. Por alguns segundos ele observou o rapaz em pé a sua frente, como se vasculhasse sua extensa libraria mental a procura da sua identidade, e então lhe deu um aceno de cabeça ao mesmo tempo em que disse “Ralph”.  Esse era o sinal para que o rapaz pudesse fazer seu relatório da expedição.
                Durante horas ele deu um relatório falado de tudo que havia encontrado pelo caminho. Descreveu com detalhes a cidade subterrânea e demonstrou que seria inteligente enviar uma patrulha para aproveitar melhor os recursos disponíveis no local. Falou da presença de árvores diversas, mas omitiu sua experiência extraordinária, pois sabia que seria desacreditado imediatamente. Deixou registrado o grupo de pessoas que agiam de modo estranho e descobriu que era o primeiro a vê-los. Descarregou os arquivos do robô para mostrar as fotos e a rota que havia feito para mapeamento. Quando terminou o relatório, se despediu com uma espécie de reverência, curvando-se um pouco para frente e saiu. Já era noite e a rua estava iluminada por algumas luminárias distantes, deixando tudo na penumbra. Assim, entre sombras, ele seguiu até sua casa e para maior alegria, para sua cama.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Crônicas da Nova Era - VIII


                Ralph guardou o revólver pesado na cintura, sem saber ao certo o porque, já que a arma não teria utilidade uma vez que ele não estava levando munição para ela. Por algum motivo, o peso da arma na cintura lhe foi reconfortante e melhorou seu humor, que ao contrário da maior parte do tempo, já se encontrava em bom estado. Ele se observou um pouco com o revólver na cintura e se virou para seu companheiro e deu uma volta, esperando uma opinião que sabia que não viria. Mesmo assim, não pode deixar de se surpreender ao escutar o som das lentes sendo ajustadas ao se virar de costas, com o revólver totalmente exposto para o robô. O rapaz deu um leve sorriso e sentou novamente, tirando a arma da cintura e deixando-a próxima a fogueira, observando o modo como o reflexo das chamas pareciam dançar no barril e no cano da arma. O ronco do seu estômago lhe lembrou que não havia comido ainda e preparou a janta.
                Ao terminar de comer, andou ao redor da praça, vendo as diferentes espécies de árvores que conseguiram sobreviver ali. No centro da praça estava um enorme salgueiro, maior do que qualquer coisa natural que ele já havia visto, com exceção, talvez, do monólito. Se aproximou e tocou a árvore, e pode jurar que sentiu o ar se adensar e um pulsar vindo do chão por um instante. Ao olhar em volta, tudo continuava igual e ao mesmo tempo diferente. As cores pareciam mais vivas e o ar mais fresco. Sem tirar a mão do tronco, deu a volta no salgueiro e viu marcas do tempo e do homem. Pontos em que a casca era mais fina e algumas cicatrizes deixadas por casais apaixonados. Mesmo após tanto tempo sob a terra, a grande árvore parecia continuar crescendo lentamente. De uma de suas folhas caiu uma gota que a terra absorveu rapidamente, mas não como a terra da superfície que tem sede.
                Subitamente, foi acometido da necessidade de se aproximar mais da árvore e antes que pudesse pensar, a abraçou. Não entendeu o motivo de fazer isso e não pensou no assunto, pois o que sentiu foi a melhor sensação de sua vida. De repente ele era um com a terra sob seus pés e o salgueiro nos seus braços. Ele via o vento e ouvia os sussurros das árvores ao seu redor. E então, a tristeza de todas as coisas. O planeta estava triste, machucado e a culpa era deles. Dos humanos. A culpa era sua. Os sussurros se transformaram em vozes zangadas e a terra sob seus pés queria suga-lo como havia feito com a gota de água. O terror tomou conta de seu corpo. Aquilo não era algo para que estivesse preparado. Enfrentaria qualquer inimigo, vivo ou escravizado, sem piscar, mas agora as lágrimas brotaram de seus olhos e ele se sentiu indefeso. Ele sabia que iria ser punido ali, naquela cidade subterrânea, pelos crimes da humanidade contra o planeta. E então, quando as vozes passaram a gritar, e a força em suas pernas começava a falhar, ele agarrou-se com mais força ao salgueiro e sentiu o calor de um abraço retribuir o seu toque. Nesse instante as vozes se calaram e tudo se acalmou, ele se sentia protegido, como se estivesse nos braços da mãe. Olhou para cima e os galhos pareciam estar curvados ao seu redor, criando uma parede protetora. Um leve tremor passou pelo tronco da árvore e avançou pelos galhos, fazendo-os tremer e algumas folhas caírem. As vozes voltaram dessa vez, parecidas com pedidos de desculpas envergonhados e o medo passou.
                Aos poucos, ele se afastou da grande árvore, mas a sensação de proximidade e o calor continuavam presentes ao seu redor. Ele se afastou lentamente, com o respeito que o local merecia, e reparou que havia flores pelo caminho. Pensou em pegar uma, mas lembrou-se da fúria que havia presenciado a poucos instantes e mudou de ideia. Ao chegar à borda da praça, assoviou por três segundos e esperou até que o pequeno robô chegasse. Mandou que ele filmasse e tirasse fotos das árvores, mas sem entrar no perímetro do parque. Sentiu que se uma máquina cruzasse aquela linha que separava o que era fruto do homem e o que era fruto direto da terra, o tênue equilíbrio existente naquela caverna acabaria e tudo desmoronaria, não só metaforicamente. Esperou que a tarefa estivesse terminada e voltou para perto da fogueira, que estava quase morrendo. Reavivou as chamas com algumas tábuas de uma construção e entrou no seu saco de dormir. Demorou a dormir e naquela noite seu sono foi agitado e cheio de sonhos que não compreendeu ao acordar.
                Ao acordar, guardou as coisas e comeu um pedaço de carne seca com um pouco de água. Havia muito para contar e mostrar, era hora de voltar para casa. Juntou as coisas e saiu da cidade. A luz do sol foi ofuscante por alguns instantes, pois no dia anterior seus olhos haviam se acostumado com a penumbra. O ar lhe parecia sufocante após o frescor da grande caverna. Natural, pensou ele, mas algo estava diferente. Uma leve dormência subia dos seus pés a cada passo e o vento fazia um som diferente aos seus ouvidos. Alguma coisa havia mudado, dentro dele, e não ao seu redor. Sua consciência do mundo ao seu redor estava maior, tudo parecia mais nítido aos seus olhos. Cada passo que dava ecoava nos seus ouvidos e cheiros distantes e sutis chegavam as suas narinas. Seus sentidos estavam afinados com o ambiente e isso lhe perturbou no início, mas aos poucos começou a se acostumar e controlar isso. Nos primeiros dias, no entanto, era perturbador e ele não conseguia entender o que tinha acontecido. Passou uma semana em claro a noite, pois o som da sua própria respiração lhe mantinha acordado e cada pedregulho do chão parecia uma faca espetando sua pele.
                Em poucos dias, porém, este incomodo mostrou ter o seu lado positivo. Na terceira noite, quando estava pronto para se deitar, sentiu um leve tremor no chão e um ruído distante, mas familiar, que lhe alertou de que algo ruim estava para acontecer. Juntou rapidamente suas coisas e procurou abrigo, olhando em volta o tempo todo, mas ainda sem encontrar nada ao alcance da sua visão. Encontrou uma grande pedra a alguns metros e se escondeu atrás dela, com seu robô, sem saber do que e porque, mas sentia que estava mais seguro ali. Por vários minutos ele se manteve atrás da pedra com os músculos retesados e a respiração rápida, olhando para o ponto de onde e veio e após algum tempo seus olhos captaram movimento sob a luz fraca da lua. Era um grupo de pessoas, diferentes das que ele já havia visto, elas andavam curvadas, com as mãos quase tocando o chão e a cabeça a frente do corpo, como se farejassem o ar a sua frente. Ele pode ouvi-los conversando sobre alguma coisa que haviam visto naquele local e soube que era dele que falavam. Pelo tom da conversa, não eram amistosos e não queriam apenas dividir o local de descanso com mais alguém. Sem perceber, ele arreganhou os dentes para eles de seu esconderijo e seu corpo se preparou para saltar, pronto a qualquer atitude agressiva dos estranhos. Após alguma discussão eles seguiram seu caminho para longe dali e Ralph se acalmou, a adrenalina deixando de atuar aos poucos e o corpo sendo tomado pela exaustão causada pela tensão nos músculos. Recostado na grande pedra, ele se acalmou e dormiu até o amanhecer.