segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Crônicas da Nova Era - II


                O jovem de corpo esguio começou a descer uma escada em espiral sem corrimão na parte interior, o que o deixava suscetível a uma queda de altura incalculável devido a escuridão.  O garoto, ou jovem adulto como ele gostava de se denominar, tinha 25 anos, embora parecesse ter no máximo 17. Os cabelos curtos e rebeldes colaboravam para o ar jovem, embora fosse difícil ter algum cuidado com os cabelos naquele tempo, além de cortar de tempos em tempos. A camiseta ajustada ao corpo dava uma grande liberdade de movimentos, enquanto a calça de um verde escuro contribuía com muitos bolsos para o que quer que fosse necessário carregar nas andanças. Junto ele carregava sempre uma mochila preta, não muito grande e presa a cintura de modo que não ficasse balançando durante uma corrida. Todo esse aparato lhe disfarçava a idade, apesar da pistola e da grande faca na cintura.
                De dentro da mochila retirou um pequeno aparato com o qual prendeu a lanterna na mochila, sobre o ombro esquerdo. Desse modo ficou com as duas mãos livres para manter o equilíbrio ou se segurar caso fosse necessário.
                Enquanto fazia sua jornada em direção ao centro da terra, pode ver muitas pichações em cores berrantes nas paredes da construção. Uma em verde neon chamou sua atenção em especial. Ela dizia: “A salvação está no Grande Repolho! Se arrependa e o Grande Repolho irá te salvar!”. Ele quase riu daquilo, esboçando um meio sorriso. “A salvação está apenas na sua cabeça drogada, punk. Você devia ter aceitado a vida como ela era. Talvez hoje estivesse velho e ensinando isso para seus netos. Mas deve ter se tornado um deles...”
                Após o que pareceram 6 andares apenas de descida sem nada além das paredes pichadas, as paredes passaram a ter apenas a cobertura do mofo e musgo, devido ao ar úmido do subterrâneo.  Mas, além disso, a construção continuava parecendo um grande buraco aberto na terra com uma escada para o fundo.
                Quando já estava se cansando da descida e pensando em voltar para a superfície da caverna, ele viu algo diferente na parede do lado oposto onde estava. Caminhou rápido até lá e entendeu o porquê daquilo ter sido escavado tão fundo no solo. Ele estava diante de uma cela, com grades bem reforçadas, de aproximadamente 35mm² de aço maciço. Imaginou que esse fosse o motivo das pichações terem parado tantos metros acima. Para alguém ser preso em um buraco na terra desse jeito, provavelmente não havia roubado um pão para se alimentar a noite.
                Com essa nova descoberta, animou-se a continuar a descida e chegar, literalmente, ao fundo daquilo. A partir daquele ponto, novas celas surgiam a curtos intervalos, todas iguais ou mais reforçadas que a primeira, mas todas vazias, como se nunca tivessem sido ocupadas. Enquanto examinava uma cela particularmente grande, viu alguma coisa brilhante com o canto do olho e se virou para olhar. Ao focar a lanterna no local em que havia visto o brilho, não viu mais nada. Considerou que a intensidade da luz da lanterna estivesse ofuscando a o brilho anterior e a desligou. Conforme os olhos se adaptavam a escuridão, ele pode ver com clareza que alguns metros abaixo, do lado oposto ao que estava, havia algo que brilhava. Era um brilho fraco, de um amarelo sem vida e sem uma forma específica. Reacendeu a lanterna e voltou a descer para ver do que se tratava.
                Ao chegar à origem da luminosidade, ficou decepcionado. A fonte da luz era uma pessoa conhecida e muito querida para ele. “Chefe Hohl? É você mesmo?” ele perguntou. O homem grunhiu alguma coisa em resposta e balançou a cabeça afirmativamente, mas não levantou a cabeça para ver quem falava com ele. “Sou eu, Ralph. Olhe para mim quando eu falar com você.” disse o jovem com tom autoritário e o conhecido finalmente olhou para ele.
                A repulsa tomou conta de Ralph e ele teve vontade de virar o rosto ante àquela visão. O homem gordo e redondo como um barril, estava com toda a pele de uma coloração cinza-azulada e coberta de feridas que nunca cicatrizavam. Os olhos vazios e amarelados remetiam a alguém muito doente, assim como os cabelos ralos e oleosos que lhe caiam pela face. O estado era pior no extremo dos braços, que estavam enegrecidos e pareciam podres. Seu estado lembrava o de um morto em estado avançado de decomposição.
                No entanto, o que chamava a atenção antes de tudo era o que emitia a luz amarelada que ele havia visto antes. No tronco do Chefe uma marca, parecendo alguma letra de um alfabeto esquecido, semelhante a um “N” cortado por uma linha horizontal que circundava o corpo, da largura de uma régua e mais profunda que as outras feridas que pontilhavam o corpo. O jovem não havia encontrado muitos sobreviventes nesse estado, mas sabia que enquanto a marca emitisse alguma luz ainda havia consciência no afetado e assim, chance de reversão. Com esse pensamento, ele tomou uma decisão.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Crônicas da Nova Era - I


                Ali estava ele, caminhado em meio às ruínas de mais uma cidade que havia sido tragada pela terra e que por milagre, ou mágica, ele não sabia dizer, ficou escondida dentro de uma caverna. Ao invés de ter sido soterrada, a cidade simplesmente afundou e foi tapada com terra, como se faz quando se prepara uma armadilha camuflada. O túnel que levava a antiga metrópole foi descoberto por acaso, com um tropeço e um tombo seguido de 20 metros de descida rolando.
                A saída do ar quente e seco do deserto atômico e a entrada no ar úmido e fresco do subterrâneo foi o que lhe despertou o interesse por aquele túnel. Estava cansado de passar calor e resolveu olhar um pouco por ali. Ajeitou a camiseta vermelha, a mochila preta e tirou a poeira dos ombros e do resto do corpo todo. Colocou a mão na cintura e percebeu que a arma que carregava ali, uma pistola semi-automática leve, do modelo usado pela polícia quando ela ainda existia, não estava no lugar. Olhou em volta e viu um robô segurando a arma apontada para ele. Caminhou até ele e pegou a arma que estava sendo devolvida. Levantou um pouco os braços e avaliou a situação. A calça continuava intacta, a faca enferrujada à esquerda da cintura e a 9mm na direita. Os sapatos de caminhada estavam bem amarrados e quase novos. Tudo pronto para continuar a expedição.
                Com um sinal, recomeçou a andar túnel adentro, seguido pelo pequeno robô vermelho, mais parecido com uma grande caixa com esteiras de andar. Assim que a luz começou a ficar fraca demais, o robô ligou duas lanternas. Com a mão direita, o rapaz pegou uma das lanternas do pequeno autômato e começou a rastrear um lado do túnel, enquanto a máquina fazia o mesmo com o outro lado.
                A descida foi rápida, aproximadamente 20 minutos e não teve surpresas. O túnel era bem seguro e em alguns momentos ele teve a sensação de que a pedra tinha sido escavada a mão. Ao chegar ao final dele, teve certeza. A visão da cidade subterrânea o fez perder o fôlego por alguns instantes e o seu companheiro soltou um apito baixo de assombro. Eles já haviam passado por diversas cidades grandes antes, mas aquela era enorme, com edifícios muito altos e estava embaixo da terra.
                Por muito tempo eles exploraram a cidade, entraram em algumas construções inclusive, mas em nenhum momento se arriscaram a subir nos altos prédios. Encontraram algumas coisas úteis em armazéns e antigos mini-mercados. Procuraram por uma loja de armas, mas isso poderia levar muitas horas ou talvez até alguns dias.
                Enquanto andavam, se depararam com uma praça e a segunda grande surpresa do dia: árvores. Não havia como entender a existência daquelas árvores ali, verdes e saudáveis, mas a presença delas era a prova incontestável da sua existência. Talvez o ar ali ainda fosse mais puro e tivesse oxigênio suficiente, ou então o solo fosse muito rico em minerais, mas aquelas eram definitivamente plantas saudáveis e algumas das últimas remanescentes no planeta.
                Andando entre as árvores antigas, anteriores ao cataclismo mundial, eles avançaram para o interior do parque. Aos poucos começaram a ver árvores que se destacavam das outras por não serem tão cheias de vida e aos poucos encontraram algumas caídas e secas, até que em alguns pontos a terra estava claramente estéril. Após alguns metros andando sobre a terra sem vida, o terreno começou a ter um leve aclive. No topo da elevação, havia um monólito gigantesco, tão alto quanto muitos dos prédios que haviam visto no caminho.
                De frente para o caminho de onde haviam vindo havia uma abertura na rocha e ao se aproximarem, puderam ver que havia algo parecido com uma câmara no seu interior. Chegando mais perto, puderam ver que no seu interior havia uma escada que descia em espiral para o centro do planeta. Parados em frente ao umbral, humano e máquina procuravam na memória por algo que fosse parecido com aquilo em algum tempo, mas a busca foi em vão. Não havia registro vivo de nada parecido com aquilo.
                Com um aceno de mão, o robô recuou alguns metros e se fixou de frente para a entrada. Com um ruído metálico, dois pequenos compartimentos se abriram nas laterais da sua lataria e de dentro dele emergiram dois braços de ferro empunhando pequenas submetralhadoras que ficaram fixamente apontadas para a entrada. Satisfeito, ele fez um aceno com a cabeça e entrou no monólito.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Crônicas da nova era

Bem... Começando um post de maneira diferente, com algumas palavras minhas. Sei que não é muita gente que lê isso, mas eu gosto de escrever assim mesmo. A idéia para essa história, que não tem vínculo nenhum com a aventura de Fingham e seus companheiros, surgiu com um sonho que eu achei um tanto quanto doido, e que ficou gravado na minha memória com um filme. Então, a partir daqui, vou fazer alguns posts com essa história que não sei se será tão comprida quanto a âncora, mas que vai ser escrita com muito carinho. Espero que gostem.


Crônicas da Nova Era


Existe uma cura para todas as mazelas da humanidade. Mas ninguém quer reconhecer a morte como o fim dos sofrimentos. Alguns buscam se conformar com a idéia de que existe um lugar melhor para onde a alma vai após a morte, outros dizem que ela volta a renascer em outro corpo em um círculo interminável em busca da pureza de alma. É a busca para explicar o fim, que nada mais é que o fim. Pelo menos um povo percebeu isso, e buscou a cura para todos. Por isso deixou de existir.

sábado, 9 de outubro de 2010

Antes


Rapidamente, todos se reuniram no centro da cidade desértica, onde agora estava o líder do bando de mãos dadas com a misteriosa mulher, chamada Jaquiel, mas isso não era do conhecimento de todos ali. Ele segurava na mão direita uma lança comprida com uma lâmina estranha e tosca, enquanto ela carregava na cintura duas espadas, uma de lâmina fina e comprida, quase tocando o chão e a outra de lâmina mais larga e curta, chegando à altura do joelho. As roupas de cores escuras, com exceção de uma peça ou outra, eram simples e não forneciam grande proteção, mas mesmo assim, não utilizavam nada além disso.
Ambos altos e morenos, de cabelos negros e olhos desafiadores, olhavam agora sorridentes para todos a sua volta. O porte altivo de ambos fazia com que parecessem reis, prestes a um anúncio muito importante. No entanto, não possuíam sangue nobre e muito menos desejavam isso ou invejavam aos reis, muito pelo contrário. Não serviam a rei algum e eram caçados por vários, mas mesmo assim, eram quase que venerados pela hoste que lhes seguia.
                O que eles precisavam falar agora, no entanto, traria dor e sofrimento mais tarde. Eles sabiam disso e todos ali presentes também, antes mesmo de qualquer palavra ser pronunciada.  Com todos atentos aos seus rostos e ansiosos por suas palavras, eles disseram em uníssono:
                -Irmãos! Hoje a Morte dança ao nosso lado! Vamos acolhê-la bem e indicar os melhores parceiros para sua valsa final.
                Aqui, apenas ele continuou falando, enquanto a dama se afastou enquanto dobrava um pequeno pedaço de pano até ficar do tamanho exato para cobrir seus olhos.
                -Alguns de nós não irão comemorar a vitória amanhã, talvez eu mesmo seja um deles. Porém, sairemos vitoriosos e aqueles dos nossos inimigos que fugirem com vida, contaram nossas façanhas para toda gente. Nosso inimigo se aproxima escondido com artimanhas e feitiços. Vamos mostrar para ele que nada pode fugir a fúria de uma tempestade do deserto!
                E mais uma vez todos bradaram confiantes, sem medo no coração e novamente o chão tremeu. Mas não pela última vez naquele dia. Mas pela última vez antes da luta, ele falou a seus companheiros.
                -Tragam os barris – ele disse para alguns homens próximos e essas foram as últimas palavras para eles antes da luta.

Prisão


Longe do calor do deserto, muito abaixo da superfície e longe de qualquer luz, ela é mantida prisioneira. As feições nobres e o sorriso que abalaram o sonho do guerreiro, não podem ser mais vistos. Por muito tempo ela esteve na escuridão e ela agora começava a tomar conta de seu coração. Sua mente, porém, continuava ativa e seus pensamentos eram claros como a água. O tempo de ficar ali havia acabado. Era hora de sair.
Seu pensamento o tempo todo procurava um jeito de escapar, mas a fome, a sede e o terror da escuridão não deixavam nenhum pensamento tomar forma. Mas por muito tempo permaneceu ali e as trevas não mais lhe amedrontavam. O corpo se acostumou com a comida pobre e escassa e a fome não lhe atormentava mais como antes. A pouca água que recebia, tomava aos poucos e mesmo sendo tendo gosto terrível, era o suficiente para matar a sede e ao passar do tempo, inclusive sobrava um pouco ao final do dia.
O movimento das águas lhe despertou lembranças de dias mais felizes, onde muito havia a ser ensinado e aprendido, e o tempo corria lentamente sob o sol ameno. Dos elfos era ela e da água eles vinham e a reverenciavam, pois em todo lugar ela está presente. Tal era sua ligação com a água, que, aos poucos, aprenderam a entrar em sintonia com ela e os espíritos que nela habitam. Assim, em uma conversa íntima que não necessita de palavras, esses pequenos espíritos podem tomar forma e interagir com quem lhes convocou.
Lembrando disso, ela juntou água durante dias em uma vasilha escondida no canto mais escuro da cela e já podia sentir a presença de algo ali. Não era como os espíritos alegres e joviais que encontrava nos riachos das florestas, mas triste e melancólico. Um ser poluído, assim como a água que habitava.
Enquanto estava absorta em seus pensamentos, não notou a chegada do carcereiro. Ele trazia a comida e a água da prisioneira, e vendo a expressão distraída dela, anunciou a sua chegada de modo zombeteiro.
-Ó, princesa Sophia, aqui está seu majestoso banquete.
Disse isso se curvando numa falsa reverência e riu alto da própria piada, e sua gargalhada era como uma revoada de corvos barulhentos. Sophia, entretanto, olhou-o dos pés a cabeça e se perguntou se realmente era ela que estava sendo mantida aprisionada. Ele se vestia como um maltrapilho, sujo e mal cuidado. Mas o pior de tudo era o cheiro. Fedia como se nunca tivesse usado água a não ser para beber. Enojada da aparição dele, apenas respondeu brevemente, para que deixasse logo a comida e fosse embora.
-Meus pais estão mortos, não sou mais princesa e sim rainha.
Essas palavras lhe causavam grande dor no coração, mas era a verdade e como uma rainha, não pode ser fraca e deixar seu povo lhe esperando. Estendeu as mãos para a comida e a água que ela tanto ansiava. E as recebeu, ainda ao som da risada incômoda e, dessa vez, escutou palavras que lhe doeram ainda mais, pois essas, não sabia se eram verdadeiras ou apenas mentiras do seu agressor, mas temia pelo pior.
-Do que adianta ser rainha, se não há mais quem governar?
Ao som dessas palavras, ela sentiu o medo dominando sua mente e se encolheu com a perspectiva de que seu povo houvesse sido dizimado. O guarda, ao ver isso, se virou e foi embora sorrindo, subindo o corredor de pedra da masmorra.
Assim que ele saiu da sua visão, Sophia se agarrou ao um pingente que carregava no pescoço suspenso por um fio de prata, praticamente invisível, a única coisa que lhe restava no momento. Esse pingente havia sido feito e entregue, não por nobre elfo, mas por um humilde homem, de espírito valente e coração honrado. Esse homem, ela escolheu para governar ao seu lado assim que chegasse a hora, mas agora, estavam separados e ela não sabia se ele ainda vivia. Mesmo assim, a simples lembrança daquele homem lhe acalentava o coração e pensar no seu rosto espantava o medo de seu coração.
Ela então se recompôs e voltou a pensar claramente para poder levar o plano adiante. Tomou um pouco da água e comeu rapidamente a refeição pobre que lhe davam sem sentir o gosto de nada. Juntou então o restante da água com a que havia tempo estava guardando e começou a palestra com o pequeno espírito. Tinha de ser rápida, pois logo alguém estaria ali para buscar seu prato e essa seria sua chance de escapar. O tempo agora corria.

domingo, 15 de agosto de 2010

Sonho

Longe de todo o alvoroço, estava a mente de Fingham, filho de alguém e pai de ninguém. Depois de quase morrer, agora tinha o primeiro sono revigorante, onde poderia descansar e não apenas se recuperar. E depois de muito tempo, junto com o sono, veio o sonho. Sonho que ele nunca mais esqueceria e que o atormentaria por muito tempo ainda, assombrando suas noites.

A neve cai sobre a floresta de árvores altas e raízes grossas. Entre elas, uma companhia de cavaleiros se move devagar, conversando e rindo alto. Estão armados, mas não se dirigem a nenhuma luta. Todos possuem o porte de reis e suas armaduras brilhantes e cavalos poderosos realçam isso. Cada um com o brasão de sua casa gravado no peito, mostra que suas raças são diferentes, mas andam lado a lado como irmãos.

Os jovens homens, os belos elfos e os bravos anões. Reis e rainhas desconhecidos para Fingham que observa tudo sem ter um corpo presente, como um fantasma assombrando um bosque. Entretanto, em meio a todos, ele reconhece um rosto. Uma rainha que a muito esteve em seus sonhos. E perante tal rosto, ele sussurra seu nome.

- Sophia...

Porém, assim que a voz sai de sua boca, sombras começam a encobrir a floresta e os cavalos ficam nervosos. O céu, antes branco das nuvens, escurece e uma risada fria e má enche o ar. O ar se torna pesado e o medo se instaura no coração de todos. No meio da confusão, ele consegue distinguir outro rosto, mais que familiar. O seu próprio.

Após isso, tudo foi trevas e sombras mais pesadas que montanhas inteiras tomaram conta de tudo. Gritos e o relinchar dos cavalos se misturaram a terrível risada que aumentava de intensidade e vinha de todo lado, mas sem origem aparente, a não ser as próprias sombras.

Em poucos instantes, porém, tudo se calou e as sombras passaram. Apenas o riso malévolo permanecia, mais fraco, mas sempre presente, como alguém que ri de um adversário humilhado. E assim que as sombras desapareceram a luz revelou uma cena terrível.

Cavalos e cavaleiros estavam todos jogados no chão, mortos. A neve coberta de sangue e os brasões de suas armaduras haviam sido cobertos por desenhos de sangue. A visão de todos mortos, fez Fingham estremecer e a risada cessou nesse momento. Então, uma voz terrível começou a falar e ela a conhecia também.

-Vejo que escapou da morte que eu havia planejado você, nobre Ninguém. Pois não conte com tal sorte novamente. Eu vejo você, sei onde está e o que sente. Tudo que você mais preza será destruído. Derramarei o sangue daqueles que ama e eles sucumbirão lentamente, enquanto me delicio com sua dor. Assim falou Nagrand e assim vai ser.

Após essas palavras, um enorme estrondo tirou Fingham de seu pesadelo, que na verdade era uma mensagem, e ao sair da casa onde se encontrava, pensou que o que havia dito já estava acontecendo. Nesse momento, ódio e medo se misturaram em seu coração e ele ficou paralisado.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Notícias

Do oeste, um batedor com vestes da mesma cor da areia, chegou cavalgando rápido. Foi até o centro da cidade onde estavam todos e desmontou para passar no meio de todos e se dirigiu, mancando, até o comandante. Sentado sob a sombra de uma tenda, ele observava todos e ao ver o batedor chegando, levantou-se e foi ao seu encontro.

- O que aconteceu com a sua perna? Quando saiu daqui não mancavas.

- Senhor, - disse o batedor - fui atingido por uma flecha, mas isso não importa. A batalha é iminente.

O silêncio caiu sobre todos, que escutavam com atenção o relato. Após as últimas palavras, alguns murmuraram que deviam ter partido muito antes e deixado o estranho no deserto.

- Silêncio! – bradou o líder e as vozes cessaram – Continue. Como eles chegaram tão rápido?

- Não sei lhe dizer isso senhor, mas eles estão viajando carregados e rapidamente. Algo os encobre, não é possível vê-los até que estejam próximos o suficiente para que possam vê-lo também. Os arqueiros parecem ter olhos de águia. Estou vivo por sorte, uma rajada de vento desviou a flecha que provavelmente me acertaria no coração. Não é natural, senhor. Não se parecem com os homens que estudamos por tanto tempo...

- Então vamos empacotar tudo e sair rápido daqui! Homens apressem-se!

- Não há tempo! Eles nos alcançarão antes de começarmos a nos mover. Chegarão antes que o sol comece a cair.

Por um momento o único som que se ouvia era o do vento, passando entre os espaços das casas e assobiando sua triste música. Então, mais uma vez o líder daqueles homens falou, e agora sua voz foi forte como um trovão, e pôde ser ouvida por todos que estavam naquela cidade abandonada, perto ou longe.

- Muito bem, vocês escutaram! O inimigo se aproxima e a batalha nos aguarda! Peguem suas armas e preparem-se, pois não sabemos o que nos aguarda, mas eles também não sabem o que os aguarda.

Disse isso e com a mão fechada em punho acima da cabeça, urrou. E seu urro foi seguido de dezenas de outros, e somados, pareciam o rugido de leões enfurecidos. Esse rugido pôde ser ouvido de muito longe, e a terra sob os pés de seus inimigos tremeu.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Descanso

Depois das palavras da misteriosa mulher, Virtün conseguiu deitar o homem novamente para que ele descansasse, pois mesmo se recuperando rápido, ainda precisava de cuidados. Após algumas palavras tranqüilas, o sono caiu sobre o enfermo e Virtün pôde também descansar. Afinal, havia três dias que não dormia direito, desde que o haviam encontrado no deserto, agonizante.

Desidratado e com queimaduras no corpo devido ao sol forte, ele estava desacordado, mas ao mesmo tempo delirante. Murmurava coisas incompreensíveis e suava muito. Ao levantarem ele para colocá-lo em um dos cavalos seu corpo não se moveu, estava rígido como rocha. O único movimento era dos olhos por baixo das pálpebras, que se moviam freneticamente e da boca que se abria apenas o suficiente para liberar os murmúrios.

Poucos achavam que ele fosse viver, porém Virtün achou estranho aquele homem com feições diferentes de todos daquela parte do mundo. Tinha perguntas e também não podia deixar alguém indefeso para morrer e ser comido pelos abutres.

Com a infusão de algumas ervas especiais que poucas pessoas conheciam, embebeu alguns panos e os colocou no corpo do moribundo, sussurrando palavras de cura e concentrando sua energia para o homem a sua frente. Assim que o corpo dele estava um pouco mais relaxado, colocou-o em sobre o próprio cavalo com a ajuda de alguns companheiros e caminhou ao seu lado durante toda a noite.

À manhã, encontraram as ruínas de uma cidade antiga, abandonada há anos, porém, não a muitos. Ali se instalaram enquanto Virtün realizava seus trabalhos de cura. Todos estavam impacientes, não sem razão, e alguns achavam que o melhor era deixá-lo ali para morrer.

O seu líder, porém, que confiava na palavra de Virtün e possuía coração bom, não deixou que aqueles comentários crescessem ou se espalhassem e acalmou o coração de todos. Sentia ele também o perigo que se aproximava, mas acreditava que o tempo seria suficiente e confiava nas habilidades do amigo.

Sua confiança era justificada. Sua esperança, no entanto, não tinha fundamento.

domingo, 11 de julho de 2010

Despertar

Depois de muito abraçar o amigo e descobrir que seu nome era Virtün, se virou para a moça de cabelos e olhos negros e pele queimada do sol para lhe agradecer também.

Ao abrir a boca para começar a falar, ela se abaixou até a altura dos seus olhos e com um dedo sobre seus lábios, o fez desistir de falar.

- Não precisa agradecer. Creio que nosso amigo aqui já tenha escutado agradecimentos suficientes por nós dois.

Ele escutou atento, pois a voz que escutava era doce e firme, tão bela quanto a voz da mais encantadora ninfa e mais sedutora do que a canção de mil sereias. No seu olhar havia ternura e compaixão por aquele homem que despertara a pouco, além da expectativa de qualquer um. O toque da pele dela com a dele, foi como o carinho de dois amantes. Todas essas sensações o deixaram perplexo e sua mente se encarregou de gravar essas sensações para que nunca mais, enquanto ele vivesse, esquecesse desse momento. Sem reação, apenas ficou encarando aqueles olhos profundos como o leito do mar.

Ela então se levantou novamente e deu as costas para o homem que continuava de boca aberta para pronunciar algo, mas completamente sem fala. Enquanto se encaminhava para a porta, escutou ruídos atrás de si e olhou por cima do ombro. O homem se sentou, com certa dificuldade e lhe lançava um olhar inquisitivo. Parou próxima a porta e se apoiou no arco dela. Com um aceno de cabeça, lançou a permissão para que ele fizesse a pergunta.

-Desculpe, mas... Qual o seu nome?

Ela sorriu e seu sorriso pareceu iluminar o quarto. Analisou o homem sentado a sua frente, ainda frágil e pôde ver que naqueles olhos queimava um fogo incessante, que deve ter sido o que o manteve vivo no deserto cruel. Um pensamento lhe passou pela cabeça e ela o imaginou como uma criança. Uma criança curiosa e teimosa. Mesmo sob a barba de um homem adulto, aquela imagem ainda era visível.

- Desculpe, não posso lhe dizer. Pelo menos não agora – disse ela.

- Mas por que não? O que lhe impede? - retrucou ele.

-Ora, uma mulher deve ser como a Lua – disse ela, enquanto avançava até seu questionador – Mesmo que seja contemplada em todo seu esplendor e beleza, nunca vai se mostrar por completo a primeira vista. É necessário observar e apreciar, a cada noite que passa, seus movimentos sutis e descobri-la aos poucos. Se quiser me conhecer, seja paciente e espere, como esperam todos que da Lua dependem.

E dizendo isso, se virou e cruzou a porta, dessa vez sem hesitar, deixando para trás dois homens, um sorrindo e o outro com olhar confuso por não ter resposta para as perguntas na sua cabeça. Sabendo disso, ficou satisfeita e sorriu também.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Vida

Sentindo o frescor de água no rosto, abriu os olhos lentamente. Não sabia dizer se era real, mas via um rosto amigo a sua frente. Não era conhecido, só sabia que era amigo e ele parecia estar... cuidando dele? Porque alguém que morreu precisa de cuidados? O amigo o levantou e levou uma pequena vasilha com água até sua boca. Ele olhou em volta após beber a água e viu que estava em um quarto simples, deitado sobre uma cama rústica. Sempre imaginou que o que havia do outro lado fosse algo muito bom para quem merecia ou sofrimento eterno para quem tivesse realizado fatos que não devem ser lembrados. Aquilo era tão simples e o amigo continuava tratando dele. Tentou falar, mas não conseguiu, sua língua nem se mexeu. O amigo sorriu e fez sinal para que não tentasse se mexer e saiu do quarto.

Então, escutou vozes próximas, vindas de outro cômodo. Falavam sobre ele. Uma fazia perguntas sobre o seu estado e a outra respondia, falando principalmente de sua recuperação extraordinária. Seria mesmo possível? Apenas pessoas vivas se recuperam de alguma coisa. Com a clareza desse pensamento, ele sentou-se rapidamente e, com os olhos arregalados de espanto, gritou:

- EU ESTOU VIVO!

O amigo e o dono – na verdade, dona – da outra voz entraram correndo no quarto e foram até ele. O amigo tentou fazê-lo deitar de novo, mas foi pego pelos ombros e escutou outro grito de uma distância inconvenientemente próxima. A moça riu do homem que gritava sorrindo, afinal, não era todo dia que se via alguém com tanta vontade de viver.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Morte



A sombra do que um dia foi um homem se arrastava pelo deserto, fugindo da morte.

O deserto castigava o corpo machucado dele, que já fora um grande guerreiro. Durante o dia, o sol lhe cozinhava a pele e a noite trazia o frio que tirava suas energias rapidamente. Para completar, o veneno no seu sangue lentamente ia lhe tirando os movimentos. Já não pensava mais na fome ou na sede. Só pensava na vida. Em tudo que ainda precisava fazer antes de partir e com esse pensamento, agarrava-se com força no último fio de vida que lhe restava.

Durante o primeiro dia no imenso deserto, deixou para trás parte de suas roupas e sua armadura, devido ao calor. Se arrependimento matasse, ele teria morrido na primeira hora após o por do sol, devido ao frio penetrante.

Durante a terceira noite, porém, sua força de vontade não foi suficiente e ele sucumbiu ao deserto. Enquanto sua visão escurecia, ele olhou para a lua vigilante, e pensou no fim. Era pior do que ele imaginava.