O jovem de corpo esguio começou a descer uma escada em espiral sem corrimão na parte interior, o que o deixava suscetível a uma queda de altura incalculável devido a escuridão. O garoto, ou jovem adulto como ele gostava de se denominar, tinha 25 anos, embora parecesse ter no máximo 17. Os cabelos curtos e rebeldes colaboravam para o ar jovem, embora fosse difícil ter algum cuidado com os cabelos naquele tempo, além de cortar de tempos em tempos. A camiseta ajustada ao corpo dava uma grande liberdade de movimentos, enquanto a calça de um verde escuro contribuía com muitos bolsos para o que quer que fosse necessário carregar nas andanças. Junto ele carregava sempre uma mochila preta, não muito grande e presa a cintura de modo que não ficasse balançando durante uma corrida. Todo esse aparato lhe disfarçava a idade, apesar da pistola e da grande faca na cintura.
De dentro da mochila retirou um pequeno aparato com o qual prendeu a lanterna na mochila, sobre o ombro esquerdo. Desse modo ficou com as duas mãos livres para manter o equilíbrio ou se segurar caso fosse necessário.
Enquanto fazia sua jornada em direção ao centro da terra, pode ver muitas pichações em cores berrantes nas paredes da construção. Uma em verde neon chamou sua atenção em especial. Ela dizia: “A salvação está no Grande Repolho! Se arrependa e o Grande Repolho irá te salvar!”. Ele quase riu daquilo, esboçando um meio sorriso. “A salvação está apenas na sua cabeça drogada, punk. Você devia ter aceitado a vida como ela era. Talvez hoje estivesse velho e ensinando isso para seus netos. Mas deve ter se tornado um deles...”
Após o que pareceram 6 andares apenas de descida sem nada além das paredes pichadas, as paredes passaram a ter apenas a cobertura do mofo e musgo, devido ao ar úmido do subterrâneo. Mas, além disso, a construção continuava parecendo um grande buraco aberto na terra com uma escada para o fundo.
Quando já estava se cansando da descida e pensando em voltar para a superfície da caverna, ele viu algo diferente na parede do lado oposto onde estava. Caminhou rápido até lá e entendeu o porquê daquilo ter sido escavado tão fundo no solo. Ele estava diante de uma cela, com grades bem reforçadas, de aproximadamente 35mm² de aço maciço. Imaginou que esse fosse o motivo das pichações terem parado tantos metros acima. Para alguém ser preso em um buraco na terra desse jeito, provavelmente não havia roubado um pão para se alimentar a noite.
Com essa nova descoberta, animou-se a continuar a descida e chegar, literalmente, ao fundo daquilo. A partir daquele ponto, novas celas surgiam a curtos intervalos, todas iguais ou mais reforçadas que a primeira, mas todas vazias, como se nunca tivessem sido ocupadas. Enquanto examinava uma cela particularmente grande, viu alguma coisa brilhante com o canto do olho e se virou para olhar. Ao focar a lanterna no local em que havia visto o brilho, não viu mais nada. Considerou que a intensidade da luz da lanterna estivesse ofuscando a o brilho anterior e a desligou. Conforme os olhos se adaptavam a escuridão, ele pode ver com clareza que alguns metros abaixo, do lado oposto ao que estava, havia algo que brilhava. Era um brilho fraco, de um amarelo sem vida e sem uma forma específica. Reacendeu a lanterna e voltou a descer para ver do que se tratava.
Ao chegar à origem da luminosidade, ficou decepcionado. A fonte da luz era uma pessoa conhecida e muito querida para ele. “Chefe Hohl? É você mesmo?” ele perguntou. O homem grunhiu alguma coisa em resposta e balançou a cabeça afirmativamente, mas não levantou a cabeça para ver quem falava com ele. “Sou eu, Ralph. Olhe para mim quando eu falar com você.” disse o jovem com tom autoritário e o conhecido finalmente olhou para ele.
A repulsa tomou conta de Ralph e ele teve vontade de virar o rosto ante àquela visão. O homem gordo e redondo como um barril, estava com toda a pele de uma coloração cinza-azulada e coberta de feridas que nunca cicatrizavam. Os olhos vazios e amarelados remetiam a alguém muito doente, assim como os cabelos ralos e oleosos que lhe caiam pela face. O estado era pior no extremo dos braços, que estavam enegrecidos e pareciam podres. Seu estado lembrava o de um morto em estado avançado de decomposição.
No entanto, o que chamava a atenção antes de tudo era o que emitia a luz amarelada que ele havia visto antes. No tronco do Chefe uma marca, parecendo alguma letra de um alfabeto esquecido, semelhante a um “N” cortado por uma linha horizontal que circundava o corpo, da largura de uma régua e mais profunda que as outras feridas que pontilhavam o corpo. O jovem não havia encontrado muitos sobreviventes nesse estado, mas sabia que enquanto a marca emitisse alguma luz ainda havia consciência no afetado e assim, chance de reversão. Com esse pensamento, ele tomou uma decisão.