terça-feira, 14 de agosto de 2012

Crônicas da Nova Era - X


                Ao entrar em casa, ouviu o som de passos rápidos e leves vindo em sua direção e ao se virar, seu irmão pulou nos seus braços, derrubando os dois no chão. As risadas logo invadiram a casa enquanto os irmãos se abraçavam, matando a saudade um do outro. Ralph conseguia, mesmo nos dias mais monótonos de suas explorações, manter a cabeça ocupada, sem pensar na volta para casa, mas ao voltar, não pensava na próxima saída.
                Diferente de quando fazia suas explorações, ao chegar em casa Ralph conversava por horas a fio com seu irmão e sua mãe. Sentado no piso da cozinha, de pés descalços, ele ficava em dia com os assuntos e falava das novidades. Sua mãe se escorava no balcão e seu irmão sentava ao seu lado em um banco de madeira. Os irmãos, não fosse a diferença de idade, o mais novo com cinco anos a menos, seriam gêmeos, tamanha era a semelhança entre eles. A principal diferença estava nos cabelos, que no mais novo caiam até os ombros e ficavam normalmente presos em um rabo de cavalo desajeitado, sempre a ponto de se desfazer. A mãe, de cabelos castanhos e ondulados chegando até o meio das costas, era um pouco mais baixa que Ralph, de feições carinhosas, mas sempre firme em suas decisões. Era alguns centímetros mais baixa que ele, mas seu ar de autoridade ultrapassava em muito qualquer limite imposto pela altura.
                Até tarde da noite eles conversaram e trocaram histórias do tempo que passaram separados. Em certo momento, Ralph colocou a mão no bolso e sentiu algo estranho, que não lembrava de ter colocado ali. Ao olhar o que era, viu uma folha de um verde intenso, igual as que havia visto na praça. Sem pensar duas vezes, chamou a atenção do irmão e entregou-lhe a folha para que guardasse sempre consigo. Ralph não perguntou sobre o pai, pois ele havia saído em uma expedição a mais tempo para investigar um suposto rio muitos quilômetros ao norte. As viagens de ida e volta deveriam durar dois meses cada, mas ele ainda tinha a missão de examinar a extensão, largura, possíveis passagens e tudo mais relacionado ao rio que pudesse ser benéfico para a cidade.
                No outro dia, Ralph levantou tarde, mas renovado, pronto para a próxima missão. Ao acordar, a casa estava vazia, pois sua mãe e irmão acordaram ao nascer do sol para cumprirem suas tarefas, como de costume. Não comeu nada, pois já era quase hora do almoço na cozinha comunitária, e saiu de casa para ver que o sol já estava quase no seu ponto máximo. Enquanto estava na cidade, costumava ficar sempre descalço, mesmo nos meses frios, e dessa vez não foi diferente, porém dessa vez não era apenas força do hábito, mas uma necessidade que ele não entendia bem. Ao sair para a rua de chão batido ouviu chamarem seu nome a alguns metros de distância. Se virou para a voz e reconheceu a irmã de Ian, Kayla, sua amiga desde a infância. Ela era poucos centímetros mais alta que Ralph, com os cabelos compridos negros como os do irmão, porém lisos e bem cuidados, ao contrário do emaranhados de fios do parente. A pele branca, mas não pálida, fazia com que seus lábios vermelhos fossem mais realçados, dando-lhe um ar de mistério e acentuando sua beleza.
                O rapaz caminhou até ela que aguardava escorada na parede de uma casa próxima, com um sorriso travesso. Ela estendeu a mão para que ela a cumprimentasse e quando sentiu o toque dele, puxou-o com força para um abraço apertado que ele recebeu e retribuiu com prazer. Um pouco de calor humano depois de tanto tempo, pensou ele, não é ruim afinal. Eles trocaram notícias e ele ficou sabendo que Ian havia anunciado a todos, na primeira hora da manhã, o trágico destino de Hohl e já estava fazendo os preparativos para a exploração da cidade subterrânea, sendo ele próprio o líder da campanha. Eles passaram o almoço juntos e à tarde ele a acompanhou até a oficina, enquanto ela fazia ajustes de rotina no robô companheiro de Ralph. Kayla o havia construído e não deixava que ninguém mais o tocasse, tanto pela sua programação quanto pela disposição dos mecanismos internos. Ao final do dia, os consertos e ajustes estavam prontos, e ela passou um último recado de seu irmão: Ralph deveria se apresentar pela manhã no Centro de Informações.

sábado, 4 de agosto de 2012

Crônicas da Nova Era - IX


                Após alguns dias de viagem, chegou de volta ao lugar que chamava de casa. Como sempre, não foi recepcionado por ninguém, todos estavam ocupados com seus afazeres já que o sol ainda estava alto. Isso não lhe incomodou, pois sabia que de um modo ou de outro todos ali arriscavam suas vidas para o bem de todos e ele estava apenas cumprindo seu trabalho. De qualquer maneira, voltar para aquele lugar sempre lhe dava uma sensação de segurança e tranquilidade, pois estava entre amigos e família. A Asa, como o vilarejo era chamado por seus habitantes, podia ser vista de vários quilômetros, pois era situada no topo de uma colina e suas torres de vigilância se erguiam a vários metros com suas potentes luzes a vasculhar o perímetro ao redor da cidadezinha. Uma grade enferrujada cercava a Asa, com dois portões, localizados nas duas extremidades da rua principal, delimitada por diversas casas simples de madeira, todas cinzentas e de um andar. Paralelas à rua principal, duas ruas corriam com acesso para mais casas do mesmo padrão, completando um total de três fileiras de casas para cada lado da rua principal, com as casas das ruas laterais de frente umas para as outras, com as ultimas tendo dois andares e a cerca como limite. Nessas casas a parte traseira não possuía janelas, exceto pelo segundo andar, onde as janelas eram usadas como pontos de observação extra para a aproximação de inimigos.
                A subida para a entrada era ladeada por uma pequena plantação de trigo que circundava a cidade e de onde boa parte do alimento era retirada. Uma reserva subterrânea de água havia sido o principal motivo para as primeiras instalações da Asa naquele local. Com essa água, eles irrigavam a pequena plantação e tinham o que beber. Um pequeno pasto na planície próxima da cidade garantia que houvesse carne de um pequeno rebanho de gado, mantido sempre com um número mínimo de animais para que não houvesse escassez em tempos difíceis.
                Durante o dia, o reflexo dos painéis solares no topo das casas tornava a cidade brilhante quando vista de longe. Os painéis forneciam toda energia necessária para o bom funcionamento da cidade. Durante o dia, pouquíssimas lâmpadas eram ligadas e apenas ferramentas essenciais eram usadas. A energia do dia era acumulada em grandes baterias subterrâneas e então usada para acender os grandes holofotes de vigilância à noite e direcionada também as casas, para proporcionar algum conforto.
                Entrando na cidade, cumprimentou algumas pessoas, mas seguiu sem paradas até a construção que servia como centro de informações. Sendo um misto de biblioteca, laboratório e centro de comunicações, era o cérebro da Asa e todos que faziam reconhecimento ou algum tipo de pesquisa, exibiam seus relatórios ali para análise e arquivamento. Sendo constituída de quatro salas, sendo a principal também a central, tinha todas as paredes revestidas de estantes com livros, mapas feitos a mão e listas com os nomes de todos da cidade e seus afazeres. Em frente a porta de entrada, uma grande mesa com pilhas de relatórios e mapas dava as boas vindas a quem entrava, junto com uma plaqueta onde se lia “Ian Samuel”. Detrás dos papéis, se via os cabelos pretos revoltos do comandante daquele reduto. Ralph bateu continência em frente à mesa para obter atenção para a entrega de seu relatório. Demorado um instante, um homem com cabelos caindo sobre os olhos também pretos e de ar cansado levantou a cabeça, revelando rosto e nariz finos, lábios vermelhos e a pele muito clara de quem se expõe pouco ao sol. Por alguns segundos ele observou o rapaz em pé a sua frente, como se vasculhasse sua extensa libraria mental a procura da sua identidade, e então lhe deu um aceno de cabeça ao mesmo tempo em que disse “Ralph”.  Esse era o sinal para que o rapaz pudesse fazer seu relatório da expedição.
                Durante horas ele deu um relatório falado de tudo que havia encontrado pelo caminho. Descreveu com detalhes a cidade subterrânea e demonstrou que seria inteligente enviar uma patrulha para aproveitar melhor os recursos disponíveis no local. Falou da presença de árvores diversas, mas omitiu sua experiência extraordinária, pois sabia que seria desacreditado imediatamente. Deixou registrado o grupo de pessoas que agiam de modo estranho e descobriu que era o primeiro a vê-los. Descarregou os arquivos do robô para mostrar as fotos e a rota que havia feito para mapeamento. Quando terminou o relatório, se despediu com uma espécie de reverência, curvando-se um pouco para frente e saiu. Já era noite e a rua estava iluminada por algumas luminárias distantes, deixando tudo na penumbra. Assim, entre sombras, ele seguiu até sua casa e para maior alegria, para sua cama.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Crônicas da Nova Era - VIII


                Ralph guardou o revólver pesado na cintura, sem saber ao certo o porque, já que a arma não teria utilidade uma vez que ele não estava levando munição para ela. Por algum motivo, o peso da arma na cintura lhe foi reconfortante e melhorou seu humor, que ao contrário da maior parte do tempo, já se encontrava em bom estado. Ele se observou um pouco com o revólver na cintura e se virou para seu companheiro e deu uma volta, esperando uma opinião que sabia que não viria. Mesmo assim, não pode deixar de se surpreender ao escutar o som das lentes sendo ajustadas ao se virar de costas, com o revólver totalmente exposto para o robô. O rapaz deu um leve sorriso e sentou novamente, tirando a arma da cintura e deixando-a próxima a fogueira, observando o modo como o reflexo das chamas pareciam dançar no barril e no cano da arma. O ronco do seu estômago lhe lembrou que não havia comido ainda e preparou a janta.
                Ao terminar de comer, andou ao redor da praça, vendo as diferentes espécies de árvores que conseguiram sobreviver ali. No centro da praça estava um enorme salgueiro, maior do que qualquer coisa natural que ele já havia visto, com exceção, talvez, do monólito. Se aproximou e tocou a árvore, e pode jurar que sentiu o ar se adensar e um pulsar vindo do chão por um instante. Ao olhar em volta, tudo continuava igual e ao mesmo tempo diferente. As cores pareciam mais vivas e o ar mais fresco. Sem tirar a mão do tronco, deu a volta no salgueiro e viu marcas do tempo e do homem. Pontos em que a casca era mais fina e algumas cicatrizes deixadas por casais apaixonados. Mesmo após tanto tempo sob a terra, a grande árvore parecia continuar crescendo lentamente. De uma de suas folhas caiu uma gota que a terra absorveu rapidamente, mas não como a terra da superfície que tem sede.
                Subitamente, foi acometido da necessidade de se aproximar mais da árvore e antes que pudesse pensar, a abraçou. Não entendeu o motivo de fazer isso e não pensou no assunto, pois o que sentiu foi a melhor sensação de sua vida. De repente ele era um com a terra sob seus pés e o salgueiro nos seus braços. Ele via o vento e ouvia os sussurros das árvores ao seu redor. E então, a tristeza de todas as coisas. O planeta estava triste, machucado e a culpa era deles. Dos humanos. A culpa era sua. Os sussurros se transformaram em vozes zangadas e a terra sob seus pés queria suga-lo como havia feito com a gota de água. O terror tomou conta de seu corpo. Aquilo não era algo para que estivesse preparado. Enfrentaria qualquer inimigo, vivo ou escravizado, sem piscar, mas agora as lágrimas brotaram de seus olhos e ele se sentiu indefeso. Ele sabia que iria ser punido ali, naquela cidade subterrânea, pelos crimes da humanidade contra o planeta. E então, quando as vozes passaram a gritar, e a força em suas pernas começava a falhar, ele agarrou-se com mais força ao salgueiro e sentiu o calor de um abraço retribuir o seu toque. Nesse instante as vozes se calaram e tudo se acalmou, ele se sentia protegido, como se estivesse nos braços da mãe. Olhou para cima e os galhos pareciam estar curvados ao seu redor, criando uma parede protetora. Um leve tremor passou pelo tronco da árvore e avançou pelos galhos, fazendo-os tremer e algumas folhas caírem. As vozes voltaram dessa vez, parecidas com pedidos de desculpas envergonhados e o medo passou.
                Aos poucos, ele se afastou da grande árvore, mas a sensação de proximidade e o calor continuavam presentes ao seu redor. Ele se afastou lentamente, com o respeito que o local merecia, e reparou que havia flores pelo caminho. Pensou em pegar uma, mas lembrou-se da fúria que havia presenciado a poucos instantes e mudou de ideia. Ao chegar à borda da praça, assoviou por três segundos e esperou até que o pequeno robô chegasse. Mandou que ele filmasse e tirasse fotos das árvores, mas sem entrar no perímetro do parque. Sentiu que se uma máquina cruzasse aquela linha que separava o que era fruto do homem e o que era fruto direto da terra, o tênue equilíbrio existente naquela caverna acabaria e tudo desmoronaria, não só metaforicamente. Esperou que a tarefa estivesse terminada e voltou para perto da fogueira, que estava quase morrendo. Reavivou as chamas com algumas tábuas de uma construção e entrou no seu saco de dormir. Demorou a dormir e naquela noite seu sono foi agitado e cheio de sonhos que não compreendeu ao acordar.
                Ao acordar, guardou as coisas e comeu um pedaço de carne seca com um pouco de água. Havia muito para contar e mostrar, era hora de voltar para casa. Juntou as coisas e saiu da cidade. A luz do sol foi ofuscante por alguns instantes, pois no dia anterior seus olhos haviam se acostumado com a penumbra. O ar lhe parecia sufocante após o frescor da grande caverna. Natural, pensou ele, mas algo estava diferente. Uma leve dormência subia dos seus pés a cada passo e o vento fazia um som diferente aos seus ouvidos. Alguma coisa havia mudado, dentro dele, e não ao seu redor. Sua consciência do mundo ao seu redor estava maior, tudo parecia mais nítido aos seus olhos. Cada passo que dava ecoava nos seus ouvidos e cheiros distantes e sutis chegavam as suas narinas. Seus sentidos estavam afinados com o ambiente e isso lhe perturbou no início, mas aos poucos começou a se acostumar e controlar isso. Nos primeiros dias, no entanto, era perturbador e ele não conseguia entender o que tinha acontecido. Passou uma semana em claro a noite, pois o som da sua própria respiração lhe mantinha acordado e cada pedregulho do chão parecia uma faca espetando sua pele.
                Em poucos dias, porém, este incomodo mostrou ter o seu lado positivo. Na terceira noite, quando estava pronto para se deitar, sentiu um leve tremor no chão e um ruído distante, mas familiar, que lhe alertou de que algo ruim estava para acontecer. Juntou rapidamente suas coisas e procurou abrigo, olhando em volta o tempo todo, mas ainda sem encontrar nada ao alcance da sua visão. Encontrou uma grande pedra a alguns metros e se escondeu atrás dela, com seu robô, sem saber do que e porque, mas sentia que estava mais seguro ali. Por vários minutos ele se manteve atrás da pedra com os músculos retesados e a respiração rápida, olhando para o ponto de onde e veio e após algum tempo seus olhos captaram movimento sob a luz fraca da lua. Era um grupo de pessoas, diferentes das que ele já havia visto, elas andavam curvadas, com as mãos quase tocando o chão e a cabeça a frente do corpo, como se farejassem o ar a sua frente. Ele pode ouvi-los conversando sobre alguma coisa que haviam visto naquele local e soube que era dele que falavam. Pelo tom da conversa, não eram amistosos e não queriam apenas dividir o local de descanso com mais alguém. Sem perceber, ele arreganhou os dentes para eles de seu esconderijo e seu corpo se preparou para saltar, pronto a qualquer atitude agressiva dos estranhos. Após alguma discussão eles seguiram seu caminho para longe dali e Ralph se acalmou, a adrenalina deixando de atuar aos poucos e o corpo sendo tomado pela exaustão causada pela tensão nos músculos. Recostado na grande pedra, ele se acalmou e dormiu até o amanhecer.

domingo, 22 de julho de 2012

Crônicas da Nova Era - VII


                Uma manhã ele acordou com algo úmido tocando seu rosto. Ao abrir os olhos, deu de cara com algo branco e peludo, com grandes olhos verdes, cheirando seu rosto. Antes que pudesse fazer qualquer coisa para afastar aquilo, que ainda não havia conseguido descobrir o que era, ele viu algo acima de si, tapando o sol. Era alguém, mas a primeira coisa que viu, foi o grande revólver prateado ao lado da perna, pendurado em um cinturão um pouco caído na cintura. E que cintura. Seu olhar voltou para a perna. A calça era uma jeans justa e realçava a coxa aonde o revólver se apoiava. Começou a olhar para cima, enquanto continuava sendo farejado. O olhar voltou para a cintura e viu as mãos que nela estavam apoiadas, com dedos finos e firmes. Era uma mulher, como ele já havia notado, magra e a blusa branca colada ao corpo realçava isso. Os seios não eram grandes, mas tampouco pequenos. Com um cálculo mental ele supôs que caberiam perfeitamente em uma mão adulta. O olhar continuou subindo e encontrou alguns cabelos castanhos caídos sobre os ombros, alguns tapando o pescoço devido ao vento. E então ele chegou ao rosto.
                Ralph já havia encontrado mulheres pelo seu caminho antes e havia algumas na sua pequena cidade. Nenhuma delas, no entanto era tão bela quanto a que estava de pé sobre ele agora. O rosto fino, bem delineado tinha um tom claro de moreno. Os lábios, curvados em um pequeno sorriso, pareciam aveludados e eram carnudos, mas não muito grandes. No lábio superior, ele pode ver, havia um pequeno sinal, que deve ser imperceptível para a maioria das pessoas. O nariz arredondado e com a ponta um pouco arrebitada dava um ar de superior. Os grandes olhos que observavam curiosos e divertidos o rapaz descabelado logo abaixo, eram da cor do mel, e brilhavam como âmbar com o toque da luz do sol. As orelhas estavam cobertas pelo cabelo ondulado, mas ele pode ver um pequeno brilho sob eles e percebeu que ela usava brincos. Uma mecha de cabelo caiu no rosto da visitante de seu ponto de descanso e ele voltou a realidade.
                Se virou então para o nariz que continuava absorto nos novos cheiros que encontrava no seu rosto. Distanciando um pouco o rosto, pode ver que era um gato, embora nunca houvesse visto um antes sem ser em livros. Saiu de dentro de seu saco de dormir e deu mais uma olhada no gato e viu que era branco do pescoço até a barriga, enquanto toda a parte superior de seu corpo era negra como a noite.
                Terminou de sair do saco de dormir e olhou para o seu próprio companheiro, passivo como uma rocha. Se ele estava assim e aqueles dois estavam de pé, deviam ser amigáveis. Ou conseguiram desativar o robô sem danificá-lo, pois continuava igual a noite anterior. Ao fazer menção de se levantar, uma mão amiga surgiu ao seu lado para que ajudar na árdua tarefa de se levantar de manhã. Ele olhou para cima e viu aquele sorriso que nunca mais iria esquecer. Ao sorrir, os olhos dela se fecharam um pouco e ele pode ver como ela tinha as bochechas rosadas e os dentes alinhados. Segurou a mão dela e foi puxado com força e firmeza, nada mais do que esperaria de alguém que se aventura pelo mundo, quando o mundo está naquele estado, mas a mão também era macia e foi difícil largá-la após estar de pé.
                Com um aceno de cabeça ele agradeceu a ajuda e começou a guardar suas coisas. Enrolou o saco de dormir e o colocou dentro da mochila, dando lugar ao tirar as calças de dentro dela. Apenas nesse momento se deu conta de que não estava usando-as. Se virou parar a moça e viu que ela olhava com grande interesse, e um sorriso nos lábios, para suas pernas e sua bunda. Ele virou o rosto rapidamente e enrubesceu, enquanto colocava rapidamente as calças. Sentou-se no chão e calçou os tênis reforçados. Quando o fez, notou que ela usava um do mesmo tipo. Depois disso levantou-se, ajustou à perna direita o coldre da arma e a esquerda a faca com a bainha. De dentro de outro bolso da mochila tirou a 9mm e verificou se estava tudo certo, colocando-a em seguida no coldre.
                Com tudo pronto, foi até o pequeno robô e acionou um botão que fez os seus painéis solares se abrirem na sua parte traseira. Virou-se para a garota e aproximou-se dela, estendendo a mão. “Ralph” disse ele e ela respondeu “Mika”, enquanto apertava de maneira firme a sua mão. O gato roçou na perna dela que, sorrindo, disse “E Sombra”, apresentando o gato, que ronronou alto ao ouvir seu nome. Com um aceno de cabeça, ele soltou a mão dela e colocou a mochila nas costas. Ela foi até uma pedra próxima e tirou de trás dela uma bolsa cuja alça colocou sobre o ombro esquerdo, com a bolsa do lado direito, lado contrário do grande revólver. Com um pulo, o gato subiu na bolsa e se aninhou ali.
                Passaram a vagar juntos e a moça percebeu que Ralph seguidamente olhava em volta e checava o robô. Por um tempo ela acompanhou essa rotina com interesse e curiosidade, e então passou a achar graça da situação. Ela pousou a mão sobre o seu ombro e lhe disse pra não se preocupar, que Sombra cuidaria de achar inimigos para eles, melhor do que qualquer máquina faria.

Por dois dias eles caminharam antes que o gato alertasse para qualquer perigo. Nesses dois dias, eles aprenderam muito um com o outro. Naquela terra sem água, os dois estavam curiosos para saber como o companheiro fazia para ter um estoque que fosse suficiente para a viagem de ida e volta. Ralph tinha seu robô, mas ele não era grande o suficiente para um estoque que uma viagem a pé e de muitos dias requeria. Ela, no entanto, tinha apenas uma bolsa e um gato. O rapaz mostrou um compartimento do robô, na parte inferior traseira, que continha um recipiente para água que era mantido refrigerado pelos seus sistemas, mas que só armazenava até cinco litros. Em conjunto com esse sistema, ele possuía um sistema de filtragem de urina, que separava todas as impurezas e reciclava a água. Essas impurezas tornavam-se elementos úteis de volta no vilarejo, já que eram mantidas em um estado sólido e separadas ao seu estado fundamental, sem ligações entre as substâncias. A garota achou o processo muito interessante, mas não se interessou em provar a água e mostrou como ela fazia. Ela então abriu a bolsa e mostrou seu interior para Ralph, que não entendeu o que via. A bolsa era incrivelmente grande por dentro, parecendo mais um armazém do que uma bolsa propriamente dita. Ela explicou que essa era uma tecnologia de controle do espaço, conectando o interior da bolsa dela diretamente com um depósito no lugar de onde ela vinha. Um portal, em outras palavras. Caso ela encontrasse algo importante para o conhecimento geral, ela poderia deixar um bilhete que alguém encontraria quando fosse repor o estoque. Ela não podia, no entanto, conversar com quem estivesse lá e o portal não se abria caso alguém estivesse naquela sala, por questões de segurança. Desse jeito, ela nunca precisava carregar muita coisa e mesmo assim nada lhe faltava.
                Com essa garota Ralph gostou de falar e conversaram muito, principalmente sobre a organização Angelus, que era desconhecida dele. O assunto veio a tona quando ele foi trocar sua camiseta e ela viu uma tatuagem nas costas do rapaz, próxima ao ombro direito e comentou que ela era da Asa Esquerda. Ele não entendeu do que ela falava, mas ela já esperava isso e riu. Ela lhe contou do dia que encontrou um homem da Auréola que lhe contou sobre os dias antes da terra virar um grande deserto e de como ele e ela haviam sobrevivido. A história havia se perdido, mas não para a Auréola que era a inteligência de uma organização mundial que havia sido criada na época em que os primeiros Amaldiçoados, como ele chamou, apareceram. O seu intuito era proteger as pessoas, e os seus integrantes eram oriundos de organizações militares que se dividiram em diversos países. A imagem de um arcanjo foi usada para dividir as forças e identificar as tropas. As asas eram as tropas de infantaria, a auréola era a inteligência e comunicações, o manto era a divisão responsável pelos civis, a espada era a artilharia e o escudo eram as divisões de blindados. Toda a conversa foi gravada pelo pequeno robô para que essas informações pudessem ser levadas de volta ao povoado.
                Como os dois suspeitavam um do outro, o verdadeiro objetivo deles era mapear a maior região possível. A ideia era encontrar outros povoados para poder criar uma rede de ajuda mútua, pois naqueles dias nada era fácil. Os dois compararam o que já havia conseguido fazer até o momento e ao localizarem o ponto onde haviam se encontrado, puderam unir as duas regiões mapeadas, cobrindo uma área grande o suficiente para pelo menos três expedições como aquela. Decidiram, no entanto, continuar a viagem ao invés de retornar, pois assim seria muito mais proveitoso, ainda mais com a localização dos dois povoados. Ralph perguntou sobre o mapa do homem da Auréola, mas ela sacudiu a cabeça e disse que ele viajava somente com a ajuda de uma bússola, sem precisar de mapas, apenas procurando os outros vilarejos. Dizia que queria reconectar todas com sinal de rádio, mas que precisaria ir pessoalmente a cada uma delas.
                Eles falaram sobre o lugar de onde vieram e descobriram que havia muitas diferenças nas tecnologias dos dois locais. Enquanto na Direita, como eles passaram a se referir a morada de Ralph, eles contavam com a ajuda de muitos pequenos robôs como o que viajava com o rapaz e outros maiores utilizados para construções e reparos nos edifícios e barricadas, na Esquerda eles tinha um largo campo de painéis solares e inclusive algumas turbinas eólicas, pois era necessária muita energia para utilizar o aparato que ligava a bolsa de Mika com o depósito e esse era um dos pequenos que eles possuíam.
                O interesse de Ralph pelo modo de funcionamento do aparelho era grande e ele queria saber como era sua construção, mas Mika não soube lhe dizer. Disse que seu negócio era chumbo e mapeamento, e que ela acreditava que ninguém saberia montar um novo aparelho daqueles, apenas conservar o existente. Para saciar um pouco da curiosidade, ela lhe mostrou o aparelho que trazia consigo. Era pequeno e branco, aproximadamente do tamanho e formato de um ovo, mas com um dos lados chato e com uma coloração diferente, um azul pulsante. Não havia sinal de divisórias e muito menos de parafusos no aparelho e após um breve exame ele devolveu-o a garota.
                Quando a noite chegou, eles se deitaram lado a lado e Sombra pulou para a cabeça do robozinho. Eles olharam as estrelas e lembraram que os mais velhos contavam que por muito tempo não foi possível ver as estrelas como eles agora faziam. Culpa das grandes bombas e dos malditos homens podres. As constelações dançavam no céu e a lua fazia vagarosamente o seu caminho, trazendo o sono para os dois, que dormiram quase ao mesmo tempo, com as mãos próximas o suficiente para sentirem o calor um do outro, mas sem tocá-las.
                Pela manhã, tomaram um café da manhã com pão fresco, que Mika pegou de sua bolsa, e água. No meio da manhã, viram algo novo para ambos, um pássaro voando alto no céu. Por um bom tempo eles ficaram observando o voo do animal e, numa decisão por instinto, decidiram seguir o pássaro. Ralph já havia visto imagens de pássaros em alguns livros, mas não imaginava que eles poderiam voar tão alto ou tão rápido. Assim, eles logo o perderam de vista, mas continuaram seguindo caminho na direção em que ele desapareceu.
                Houve uma brisa agradável durante todo o dia e ambos caminharam com um leve sorriso no rosto, tanto pela brisa confortante quanto pela companhia agradável. Ao final da tarde, conforme o sol ia se pondo, eles puderam divisar a forma de uma cadeia de montanhas ao longe. Perto do horizonte, a luz do sol fez com que outra forma ficasse visível ao longe, ao mesmo tempo em que as montanhas se tornaram visíveis. Antes de verem qualquer coisa, porém, Sombra já estava com o pelo eriçado e balançava a cauda nervosamente. Ao se aproximarem mais, a gata passou a soprar e após alguns instantes o robô de Ralph emitiu o som de uma sirene, mas baixo o suficiente para que só eles pudessem ouvir.  Ele impediu Mika com uma mão e com a outra sacou a pistola, logo em seguida fez um sinal com a mão livre e o robô exibiu uma de suas submetralhadoras. Ainda muito longe para disparar com precisão, eles passaram a avançar com cautela, até que a garota passou a frente deles de revólver em punho.
                Ela disparou. Um instante depois o alvo havia sido abatido, um tiro preciso no centro da cabeça. O ar ainda ecoava o som do tiro, quando o amaldiçoado chegou ao chão e o grande revólver voltava ao coldre, já com a bala reposta. O assombro era visível no rosto do rapaz e o orgulho era quase palpável ao redor da moça. Ele guardou a pistola e não fez perguntas, enquanto o robô já tinha saído do seu estado de alerta. Em poucos segundos, tudo tinha voltado ao normal.
                Seguiram em frente e passaram pelo corpo imóvel, em direção as montanhas. Uma leve brisa soprava as suas costas, empurrando-os e a escuridão da noite cresceu lentamente. Montaram seu acampamento improvisado e esperaram. A lua então surgiu no horizonte iluminando a planície como se fosse dia. Sentaram-se lado a lado contemplando a figura negra que a cordilheira desenhava ao longe. Seguindo no mesmo ritmo, chegariam até o sopé das montanhas no próximo dia e sentiram que seria o último dia juntos. Nada falaram aquela noite e dormiram lado a lado novamente.
                Ao amanhecer comeram o desjejum e passaram a caminhar logo cedo. O silêncio só era quebrado quando o robozinho passava por alguns pedregulhos com sua esteira. No início da tarde, estavam chegando ao fim da planície e início da cadeia de montanhas. Por um instante ambos hesitaram no próximo passo, mas, sem uma palavra, cada um seguiu para um lado, seguindo o inicio da serra sem olhar para trás. Se iriam se reunir novamente ou não, isso deixaram a cargo do destino, mas ambos odiavam despedidas e naquela noite derramaram suas lágrimas sozinhos.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Death

The shadow of what was once a man was crawling through the desert, running from death.


The desert was punishing the hurt body of him, whom was once a great warrior. During the day, the sun boiled his skin and the night brought the cold that took his energy quickly away. Besides that, the poison on his blood slowly was taking his movements away. He wasn’t thinking about the hunger or the thirst anymore. The only thought in his mind was life. He thought about everything he needed to do before passing away and with that thought, grasped with force the last thread of life left to him.


During the first day on the gigantic desert, he left behind his armor and some of his clothes because of the scorching sun. If regret could kill, he would have died on the first hour before the sundown, because of the penetrating cold.


In the third night, however, his willpower was not sufficient and he succumbed to the desert. While his vision was fading, he looked at the vigilant moon, and thought of the end. It was worse than he ever imagined.

terça-feira, 12 de abril de 2011

English posts

Well, today I'm starting a new experience: posts in english. I'll start first with a few translations of already published posts and when the time is right, new posts, written in english from the very beggining.

So now, I hope you enjoy it as much as I did when I was writing.

Thanks for your attention!


Bem pessoal, pra quem ainda passa por aqui de vez em quando, ou não, hoje vou começar com posts em inglês. É um pouco complicado  e as coisas andam mais corridas do que eu imaginava que estariam então o tempo entre as postagens pode ser maior do que o desejado (como já é).
Enfim, àqueles que gostam da língua inglesa, espero que apreciem esse trabalho que eu não estou fazendo sozinho, recebo a opinião de algumas pessoas antes e isso é muito importante para que eu possa fazer uma coisa satisfatória. Nomes serão revelados em breve.

Obrigado a todos!

sexta-feira, 25 de março de 2011

Crônicas da Nova Era - VI

Após o sepultamento na cidade subterrânea, Ralph virou as costas e começou a explorar a cidade novamente. A cidade era realmente grande, provavelmente havia sido uma metrópole do mundo antigo. Passou então a procurar por algumas edificações específicas e muito valiosas: farmácias, postos de saúde, lojas de armas, postos policiais e mercados. Farmácias foram as mais fáceis de serem encontradas, já que eram abundantes antes do caos nuclear.
             
A pilhagem consistiu principalmente de bandagens e ataduras, já que os remédios estavam havia muito tempo vencidos e provavelmente causariam mais mal do que bem ao serem usados. Ao encontrar um mercado, procurou por linha e agulha, além de uma pedra de afiar para sua faca que já estava ficando cega. Encontrou também uma barraca e se alegrou por não precisar dormir ao relento naquela noite. Pensou também no seu amigo enferrujado e encontrou um pouco de óleo e uma esponja de aço para tirar a ferrugem.
                
Seguiu caminho a procura de algum lugar que possuísse armas para conseguir, principalmente, munição. Em algumas cidades por onde havia passado os mercados possuíam sessões de armas, mas naquela não. Após caminhar um bom tempo, encontrou uma loja de armas.  Ele nunca trocava o tipo de arma usada, gostava muito das pistolas, pela sua mobilidade e praticidade. Encontrou um pouco da munição que usava para a pistola, uma 9mm. Tudo o mais que conseguiu colocar na mochila e no compartimento de carga do robô levou também, pois seria útil ao levar de volta para o assentamento. Encontrou também uma pistola do mesmo modelo que a sua, com a qual poderia fazer reparos na atual ou trocar, dependendo do estado de conservação. Além disso, encontrou um grande revólver que levou consigo também.
                
O posto policial foi impossível de encontrar e ele supôs que a cidade devia ser muito segura, quando ainda estava na superfície. No hospital, muito do que encontrou estava deteriorado pela exposição ao ar.  Encontrou pinças, tesouras e agulhas que, supôs ele, poderiam ser uteis.
                
Ao sair do hospital, ele parou para pensar o que mais ele poderia procurar e não lhe veio nada a cabeça. Ao ver que suas auto-delimitadas tarefas do dia haviam acabado, foi abatido pelo cansaço. Acordado desde o amanhecer, ou pelo menos o que parecia ser o amanhecer, ele havia caminhado sem parar até aquele momento, sem mencionar a luta, e ainda não havia parado para descansar. O estômago começou a doer, já que a ultima refeição havia sido antes de começar a caminhar.
                
Caminhando mais um pouco, ele voltou para uma das praças que havia encontrado anteriormente. Gostava do lugar e gostava das árvores. Era bom poder ficar um dia em um lugar que não fosse um grande deserto consumido pelas bombas atômicas de muitos anos antes. Ali, acendeu uma fogueira com galhos das árvores próximas e sentou-se próximo a ela, colocando o revólver que havia encontrado no colo. A coronha era feita de madeira envernizada, no barril cabiam 6 balas e o cano era longo. O brilho prateado da arma lhe trouxe lembranças.

terça-feira, 22 de março de 2011

Crônicas da Nova Era - V

Bernard Hohl teve o funeral digno de um rei. Um rei de um mundo destruído. Empurrado de volta para o buraco de onde veio amarrado a três dinamites acesas, nada dele sobrou para os monstros subterrâneos que aguardavam por carne humana. A força da explosão fez com que o solo sob o monólito ruísse e ele caísse para dentro da grande tumba que antes guardava, selando esse pequeno pedaço de inferno do mundo dos vivos.

Antes disso, Ralph pensou em investigar como seria lá embaixo. Mas ao entrar de novo e escutar os gritos famintos que vinham do fundo da caverna, repensou a idéia e preferiu mandar tudo para o inferno.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Crônicas da Nova Era - IV

                Um ruído a suas costas fez Ralph retornar de seus pensamentos e se virar para ver que havia acontecido. Os olhos e a grande marca no torso de Hohl estavam apagadas e um alerta ecoou em sua mente, fazendo suas pernas se moverem rapidamente e o braço que carregava a arma se estender em direção ao seu acompanhante. Antes do primeiro tiro, a perseguição já havia começado e Hohl agora avançava com uma fúria assassina, enquanto rugia e babava. Era incrível como um homem daquele tamanho, pudesse ser tão rápido, ainda mais subindo uma escada. As balas voavam enquanto a perseguição acontecia. Do fundo do poço para onde a escada levava, era possível escutar outras vozes rugindo, clamando pelo sangue de Ralph. Ele corria o mais rápido que consegui, mas mesmo assim, a distância entre os dois continuava diminuindo e as balas pareciam não ter efeito.
                Em certo momento, uma forte mão agarrou seu calcanhar e ele foi derrubado na precária escadaria. Com um rápido movimento, ele se virou e puxando a faca com a mão esquerda, golpeou o pulso de seu agressor, acertando um tendão e desfazendo a pegada. Frente a frente com a fera, apontou a arma e desferiu um tiro certeiro no seu olho direito, causando um urro de dor.
                Esse era o momento perfeito para acabar com isso e ele puxou novamente o gatilho. Nada. Puxou novamente. Nada. As balas haviam acabado e não havia tempo para recarregar, então, primeiro engatinhando e depois se levantando e correndo, ele voltou a fugir, desesperadamente. Em poucos segundos, ele já estava sendo perseguido novamente e a escada parecia não terminar. Finalmente, quando os músculos de suas pernas já estavam ardendo e consideravam parar de lhe empurrar nessa subida, ele viu a luminosidade da lanterna do pequeno robô que lhe aguardava na entrada da prisão e conseguiu novo fôlego para continuar a subida, agora mais rápido que antes, conseguindo preciosos metros de vantagem ante seu perseguidor. Ao chegar a saída, pulou para o lado, se virando durante o pulo e apontando para a entrada com o indicador e o dedo médio, ao mesmo tempo que gritava “Fogo!” para o companheiro metálico.
                O pequeno robô havia sido programado primeiramente para evitar o avanço do inimigo e avaliar se a atitude continuava sendo hostil, somente assim partindo para os pontos vitais. Assim, quando Hohl apareceu na entrada, as duas submetralhadoras foram rapidamente apontadas para os joelhos dele e uma saraivada de balas os estilhaçou, fazendo o enorme inimigo cair no chão. Mesmo assim, ele continuava a rugir e a avançar se arrastando. Isso fez as pequenas metralhadoras serem redirecionadas para a sua cabeça, que em poucos instantes deixou de existir. Num último momento, Ralph viu, nos olhos do Chefe, o brilho amarelo e opaco voltar e a fúria ser substituída por um olhar de agradecimento e libertação. Terminava ali a existência de um grande homem.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Crônicas da Nova Era - III

Abrindo a cela e fazendo um sinal para ser seguido, o garoto começou o caminho de volta, mas parou ao ouvir a porta da cela sendo fechada. Ao se virar, viu o chefe segurando as grades e fazendo uma negativa com a cabeça. A expressão sombria no seu rosto dizia que aquilo não era negociável. Aborrecido, Ralph voltou os poucos metros que havia andado e com uma pancada na mão do velho, abriu a cela novamente. Ele estendeu a mão, mas o antigo amigo apenas baixou a cabeça e continuou imóvel.

Pela terceira vez o jovem teria de fazer uma das coisas que mais odiava: falar. “Seu velho bastardo, venha comigo de uma vez! Você sabe que podemos reverter isso ainda, não é hora para orgulho. Eu vou continuar descendo e se você continuar assim vai ser um obstáculo a mais no meu caminho em pouco tempo. Agora vamos!”

Ao dizer isso abriu a porta violentamente e olhou furioso para Hohl que, intimidado, começou a caminhar. Satisfeito, mas não menos bravo, Ralph se virou e começou a caminhar novamente escada acima. A partir desse momento, passou a andar com a pistola na mão direita e sempre a alguns metros a frente. Sabia que naquele estado ele podia perder a consciência a qualquer momento e isso era muito perigoso. Para os dois.
                 
A subida estava sendo tranqüila, com exceção de alguns pedaços da escada que insistiam em desabar a tempos esporádicos. Nada que causasse preocupação, no entanto, e isso fez a cabeça de Ralph voltar ao tempo em que Chefe Hohl ainda estava na cidade. Ele sempre foi o mais respeitado e considerado o de maior força de vontade entre os sobreviventes daquela região. Um homem forte, de quase dois metros de altura e olhar decidido. Com suas calças jeans, botas, camiseta branca e suspensórios, estava sempre disposto a ajudar quem necessitasse. A barba negra bem aparada contornava a mandíbula e realçava o ar de austeridade que emanava dele.
                
Imaginava-se que ele já havia acabado com mais de uma centena daquelas criaturas e que poderia acabar com mais uma centena, todos ao mesmo tempo. Ninguém sabe ao certo o que fez com que as pessoas se tornassem aquelas coisas. Não foi nenhum vírus ou algum tipo de doença, nem uma nova droga ou arma biológica. A explicação mais provável era também a mais inacreditável: uma antiga maldição. Ruínas de uma antiga civilização foram descobertas e por anos foram estudadas. No entanto, focos dessa civilização foram encontrados em diversas partes do mundo, o que sugeria que havia sido um império. No entanto, nunca antes havia se visto nada parecido, não haviam relatos registrados sobre a tal civilização em qualquer história, nem ao menos lendas. Durante muitos anos o alfabeto dessa civilização foi estudado e por fim foi desvendado. Havia também as esculturas, muito instigantes, onde pessoas matavam umas as outras enquanto ambas sorriam. Nos textos, a morte era cultuada e dita a grande salvação de todos, a cura para todos os males e que aquele era o legado deles para o resto da humanidade.
                
 Isso não era uma religião ou crença, era uma aceitação universal de todos daquela civilização perdida. Diversos textos, esculturas e pinturas, no entanto, mostravam um enorme suicídio coletivo, onde o sangue dos mortos escorria para uma grande arca. Outros textos falavam sobre o medo e a dúvida, os principais males da humanidade.
                 
Após diversos anos de busca insaciável por parte dos pesquisadores, a arca foi encontrada e sobre ela muito foi falado na mídia. Ela foi aberta ante câmeras de todo o mundo e dentro dela não havia o sangue das histórias, mas um novo texto que foi traduzido e lido em tempo real para o mundo todo. O texto trazia uma mensagem para quem viesse a ler e ela dizia: “Afortunados aqueles que do coração livraram toda a dúvida e medo, pois esses poderão escolher sua hora de partir, enquanto aqueles subjugados por esses demônios, estão fadados a morrer lentamente e nunca perecer e continuar a sofrer por toda eternidade.” Tais palavras causaram arrepios em todas as pessoas ao redor do mundo mas não foram levadas a sério.  A humanidade havia se tornado cética, crente apenas nos seus deuses de doze núcleos ou mais e muitos gigabytes de memória, deixando de lado antigas tradições, mas ainda pensando no que havia após a morte. Milhões considerando-se boas pessoas, mas que nunca defenderiam alguém mais fraco, hipócritas da pior espécie. Mesmo em um mundo com superpopulação e comida demais para uns e nenhuma para outros, as pessoas praticavam trabalho voluntário apenas para ter algo a mais no currículo e mentiam para si e para os outros, dizendo que era aquilo que eles mais gostavam de fazer.
                
Aos poucos a mensagem apocalíptica lida para todo o mundo foi sendo esquecida pelos homens, mas a semente do medo já havia sido plantada e ela sempre germina, como tantas outras vezes já havia acontecido na história. A medicina e a tecnologia, andando lado a lado, haviam conseguido alcançar a cura para quase todas as doenças, da gripe comum ao câncer, entretanto, haviam boatos de que uma nova e desconhecida doença estava surgindo. Parecia uma simples doença de pele, mas logo a humanidade veria que era muito mais que isso.
                 
Ninguém sabia ao certo quais os fatores que levavam alguém a adquirir a doença que gradativamente matava as células do corpo sem fazer o mesmo com seu hospedeiro, porém as crianças, pessoas que tinham passado por experiências de quase morte e alguns outros grupos não eram afetados. Aos poucos, a histeria foi se tornando generalizada e nem mesmo as pessoas mais ricas ou importantes do mundo conseguiam escapar.
                
Começando pelas mãos e pelos pés, a pele escurecia como se tivesse sofrido de severas concussões. A coloração pútrida subia pelo corpo e feridas começavam a aparecer pelo corpo e nada fazia com que elas cicatrizassem, sempre cheias de pus e sangue coagulado. Em um estágio mais avançado, as células em algumas feridas sofriam uma mutação desconhecida e adquiriam luminescência própria, como a marca no torso do chefe Hohl. Quando chegava até a cabeça, os olhos passavam a adquirir a mesma luminosidade, variando de um verde musgo até o amarelo doentio. Isso consumia a sanidade da pessoa e de todos a sua volta, e aos poucos esses também a adquiriam.
                 
No entanto, o martírio não parava por aí, e depois de muito tempo assim, finalmente o contaminado perdia a consciência de seus atos e entrava em um frenesi destrutivo, recobrando a consciência apenas para ver a destruição que causara e ser torturado pelas imagens que voltavam à memória, dos momentos em que destruiu e matou. Com alguns, no entanto, isso era permanente e nunca mais voltavam a ser o que eram antes, ficando para o resto da sua existência nesse estado.
                
Enquanto a epidemia se espalhava, aqueles das forças armadas de todo o mundo que não estavam infectados organizavam cidades onde as pessoas saudáveis poderiam se refugiar e se manter protegidas. A partir dessas cidades, eram organizadas expedições até os grande centros urbanos, onde se encontravam a maior parte daqueles em estado avançado da doença e os que já haviam perdido a consciência, para tentar purgar essas cidades e evitar futuros ataques. Isso normalmente era feito pelos mais bravos entre os militares e resultava em muito sangue e mortes. Mas mesmo todo o esforço parecia em vão, já que as hordas de infectados continuavam aumentando.
                
Em um esforço final, engenheiros, matemáticos, militares e médicos sobreviventes se reuniram e estudaram o uso de armas nucleares para conter esse avanço. O raio das explosões foi calculado, assim como os possíveis efeitos colaterais na população sobrevivente e nas gerações futuras. As cidades-refúgio foram remanejadas para se adaptar ao raio das explosões. Grandes caravanas passaram a se locomover durante o dia e paravam durante a noite, sempre com guarda pesada. Após alguns meses, tudo estava pronto e as ogivas foram lançadas, destruindo as maiores metrópoles do planeta, que eram também os locais onde havia um maior número de infectados.
                 
Mesmo após todos os cálculos, nem tudo deu certo. Alguns dos assentamentos foram destruídos com as explosões e algumas cidades alvo ficaram fora do raio das explosões. A onda eletromagnética causada pelas explosões impediu o funcionamento das comunicações e de grande parte dos equipamentos eletrônicos. O planeta entrou em um apagão global.