quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Crônicas da Nova Era - III

Abrindo a cela e fazendo um sinal para ser seguido, o garoto começou o caminho de volta, mas parou ao ouvir a porta da cela sendo fechada. Ao se virar, viu o chefe segurando as grades e fazendo uma negativa com a cabeça. A expressão sombria no seu rosto dizia que aquilo não era negociável. Aborrecido, Ralph voltou os poucos metros que havia andado e com uma pancada na mão do velho, abriu a cela novamente. Ele estendeu a mão, mas o antigo amigo apenas baixou a cabeça e continuou imóvel.

Pela terceira vez o jovem teria de fazer uma das coisas que mais odiava: falar. “Seu velho bastardo, venha comigo de uma vez! Você sabe que podemos reverter isso ainda, não é hora para orgulho. Eu vou continuar descendo e se você continuar assim vai ser um obstáculo a mais no meu caminho em pouco tempo. Agora vamos!”

Ao dizer isso abriu a porta violentamente e olhou furioso para Hohl que, intimidado, começou a caminhar. Satisfeito, mas não menos bravo, Ralph se virou e começou a caminhar novamente escada acima. A partir desse momento, passou a andar com a pistola na mão direita e sempre a alguns metros a frente. Sabia que naquele estado ele podia perder a consciência a qualquer momento e isso era muito perigoso. Para os dois.
                 
A subida estava sendo tranqüila, com exceção de alguns pedaços da escada que insistiam em desabar a tempos esporádicos. Nada que causasse preocupação, no entanto, e isso fez a cabeça de Ralph voltar ao tempo em que Chefe Hohl ainda estava na cidade. Ele sempre foi o mais respeitado e considerado o de maior força de vontade entre os sobreviventes daquela região. Um homem forte, de quase dois metros de altura e olhar decidido. Com suas calças jeans, botas, camiseta branca e suspensórios, estava sempre disposto a ajudar quem necessitasse. A barba negra bem aparada contornava a mandíbula e realçava o ar de austeridade que emanava dele.
                
Imaginava-se que ele já havia acabado com mais de uma centena daquelas criaturas e que poderia acabar com mais uma centena, todos ao mesmo tempo. Ninguém sabe ao certo o que fez com que as pessoas se tornassem aquelas coisas. Não foi nenhum vírus ou algum tipo de doença, nem uma nova droga ou arma biológica. A explicação mais provável era também a mais inacreditável: uma antiga maldição. Ruínas de uma antiga civilização foram descobertas e por anos foram estudadas. No entanto, focos dessa civilização foram encontrados em diversas partes do mundo, o que sugeria que havia sido um império. No entanto, nunca antes havia se visto nada parecido, não haviam relatos registrados sobre a tal civilização em qualquer história, nem ao menos lendas. Durante muitos anos o alfabeto dessa civilização foi estudado e por fim foi desvendado. Havia também as esculturas, muito instigantes, onde pessoas matavam umas as outras enquanto ambas sorriam. Nos textos, a morte era cultuada e dita a grande salvação de todos, a cura para todos os males e que aquele era o legado deles para o resto da humanidade.
                
 Isso não era uma religião ou crença, era uma aceitação universal de todos daquela civilização perdida. Diversos textos, esculturas e pinturas, no entanto, mostravam um enorme suicídio coletivo, onde o sangue dos mortos escorria para uma grande arca. Outros textos falavam sobre o medo e a dúvida, os principais males da humanidade.
                 
Após diversos anos de busca insaciável por parte dos pesquisadores, a arca foi encontrada e sobre ela muito foi falado na mídia. Ela foi aberta ante câmeras de todo o mundo e dentro dela não havia o sangue das histórias, mas um novo texto que foi traduzido e lido em tempo real para o mundo todo. O texto trazia uma mensagem para quem viesse a ler e ela dizia: “Afortunados aqueles que do coração livraram toda a dúvida e medo, pois esses poderão escolher sua hora de partir, enquanto aqueles subjugados por esses demônios, estão fadados a morrer lentamente e nunca perecer e continuar a sofrer por toda eternidade.” Tais palavras causaram arrepios em todas as pessoas ao redor do mundo mas não foram levadas a sério.  A humanidade havia se tornado cética, crente apenas nos seus deuses de doze núcleos ou mais e muitos gigabytes de memória, deixando de lado antigas tradições, mas ainda pensando no que havia após a morte. Milhões considerando-se boas pessoas, mas que nunca defenderiam alguém mais fraco, hipócritas da pior espécie. Mesmo em um mundo com superpopulação e comida demais para uns e nenhuma para outros, as pessoas praticavam trabalho voluntário apenas para ter algo a mais no currículo e mentiam para si e para os outros, dizendo que era aquilo que eles mais gostavam de fazer.
                
Aos poucos a mensagem apocalíptica lida para todo o mundo foi sendo esquecida pelos homens, mas a semente do medo já havia sido plantada e ela sempre germina, como tantas outras vezes já havia acontecido na história. A medicina e a tecnologia, andando lado a lado, haviam conseguido alcançar a cura para quase todas as doenças, da gripe comum ao câncer, entretanto, haviam boatos de que uma nova e desconhecida doença estava surgindo. Parecia uma simples doença de pele, mas logo a humanidade veria que era muito mais que isso.
                 
Ninguém sabia ao certo quais os fatores que levavam alguém a adquirir a doença que gradativamente matava as células do corpo sem fazer o mesmo com seu hospedeiro, porém as crianças, pessoas que tinham passado por experiências de quase morte e alguns outros grupos não eram afetados. Aos poucos, a histeria foi se tornando generalizada e nem mesmo as pessoas mais ricas ou importantes do mundo conseguiam escapar.
                
Começando pelas mãos e pelos pés, a pele escurecia como se tivesse sofrido de severas concussões. A coloração pútrida subia pelo corpo e feridas começavam a aparecer pelo corpo e nada fazia com que elas cicatrizassem, sempre cheias de pus e sangue coagulado. Em um estágio mais avançado, as células em algumas feridas sofriam uma mutação desconhecida e adquiriam luminescência própria, como a marca no torso do chefe Hohl. Quando chegava até a cabeça, os olhos passavam a adquirir a mesma luminosidade, variando de um verde musgo até o amarelo doentio. Isso consumia a sanidade da pessoa e de todos a sua volta, e aos poucos esses também a adquiriam.
                 
No entanto, o martírio não parava por aí, e depois de muito tempo assim, finalmente o contaminado perdia a consciência de seus atos e entrava em um frenesi destrutivo, recobrando a consciência apenas para ver a destruição que causara e ser torturado pelas imagens que voltavam à memória, dos momentos em que destruiu e matou. Com alguns, no entanto, isso era permanente e nunca mais voltavam a ser o que eram antes, ficando para o resto da sua existência nesse estado.
                
Enquanto a epidemia se espalhava, aqueles das forças armadas de todo o mundo que não estavam infectados organizavam cidades onde as pessoas saudáveis poderiam se refugiar e se manter protegidas. A partir dessas cidades, eram organizadas expedições até os grande centros urbanos, onde se encontravam a maior parte daqueles em estado avançado da doença e os que já haviam perdido a consciência, para tentar purgar essas cidades e evitar futuros ataques. Isso normalmente era feito pelos mais bravos entre os militares e resultava em muito sangue e mortes. Mas mesmo todo o esforço parecia em vão, já que as hordas de infectados continuavam aumentando.
                
Em um esforço final, engenheiros, matemáticos, militares e médicos sobreviventes se reuniram e estudaram o uso de armas nucleares para conter esse avanço. O raio das explosões foi calculado, assim como os possíveis efeitos colaterais na população sobrevivente e nas gerações futuras. As cidades-refúgio foram remanejadas para se adaptar ao raio das explosões. Grandes caravanas passaram a se locomover durante o dia e paravam durante a noite, sempre com guarda pesada. Após alguns meses, tudo estava pronto e as ogivas foram lançadas, destruindo as maiores metrópoles do planeta, que eram também os locais onde havia um maior número de infectados.
                 
Mesmo após todos os cálculos, nem tudo deu certo. Alguns dos assentamentos foram destruídos com as explosões e algumas cidades alvo ficaram fora do raio das explosões. A onda eletromagnética causada pelas explosões impediu o funcionamento das comunicações e de grande parte dos equipamentos eletrônicos. O planeta entrou em um apagão global.