segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Crônicas da Nova Era - II


                O jovem de corpo esguio começou a descer uma escada em espiral sem corrimão na parte interior, o que o deixava suscetível a uma queda de altura incalculável devido a escuridão.  O garoto, ou jovem adulto como ele gostava de se denominar, tinha 25 anos, embora parecesse ter no máximo 17. Os cabelos curtos e rebeldes colaboravam para o ar jovem, embora fosse difícil ter algum cuidado com os cabelos naquele tempo, além de cortar de tempos em tempos. A camiseta ajustada ao corpo dava uma grande liberdade de movimentos, enquanto a calça de um verde escuro contribuía com muitos bolsos para o que quer que fosse necessário carregar nas andanças. Junto ele carregava sempre uma mochila preta, não muito grande e presa a cintura de modo que não ficasse balançando durante uma corrida. Todo esse aparato lhe disfarçava a idade, apesar da pistola e da grande faca na cintura.
                De dentro da mochila retirou um pequeno aparato com o qual prendeu a lanterna na mochila, sobre o ombro esquerdo. Desse modo ficou com as duas mãos livres para manter o equilíbrio ou se segurar caso fosse necessário.
                Enquanto fazia sua jornada em direção ao centro da terra, pode ver muitas pichações em cores berrantes nas paredes da construção. Uma em verde neon chamou sua atenção em especial. Ela dizia: “A salvação está no Grande Repolho! Se arrependa e o Grande Repolho irá te salvar!”. Ele quase riu daquilo, esboçando um meio sorriso. “A salvação está apenas na sua cabeça drogada, punk. Você devia ter aceitado a vida como ela era. Talvez hoje estivesse velho e ensinando isso para seus netos. Mas deve ter se tornado um deles...”
                Após o que pareceram 6 andares apenas de descida sem nada além das paredes pichadas, as paredes passaram a ter apenas a cobertura do mofo e musgo, devido ao ar úmido do subterrâneo.  Mas, além disso, a construção continuava parecendo um grande buraco aberto na terra com uma escada para o fundo.
                Quando já estava se cansando da descida e pensando em voltar para a superfície da caverna, ele viu algo diferente na parede do lado oposto onde estava. Caminhou rápido até lá e entendeu o porquê daquilo ter sido escavado tão fundo no solo. Ele estava diante de uma cela, com grades bem reforçadas, de aproximadamente 35mm² de aço maciço. Imaginou que esse fosse o motivo das pichações terem parado tantos metros acima. Para alguém ser preso em um buraco na terra desse jeito, provavelmente não havia roubado um pão para se alimentar a noite.
                Com essa nova descoberta, animou-se a continuar a descida e chegar, literalmente, ao fundo daquilo. A partir daquele ponto, novas celas surgiam a curtos intervalos, todas iguais ou mais reforçadas que a primeira, mas todas vazias, como se nunca tivessem sido ocupadas. Enquanto examinava uma cela particularmente grande, viu alguma coisa brilhante com o canto do olho e se virou para olhar. Ao focar a lanterna no local em que havia visto o brilho, não viu mais nada. Considerou que a intensidade da luz da lanterna estivesse ofuscando a o brilho anterior e a desligou. Conforme os olhos se adaptavam a escuridão, ele pode ver com clareza que alguns metros abaixo, do lado oposto ao que estava, havia algo que brilhava. Era um brilho fraco, de um amarelo sem vida e sem uma forma específica. Reacendeu a lanterna e voltou a descer para ver do que se tratava.
                Ao chegar à origem da luminosidade, ficou decepcionado. A fonte da luz era uma pessoa conhecida e muito querida para ele. “Chefe Hohl? É você mesmo?” ele perguntou. O homem grunhiu alguma coisa em resposta e balançou a cabeça afirmativamente, mas não levantou a cabeça para ver quem falava com ele. “Sou eu, Ralph. Olhe para mim quando eu falar com você.” disse o jovem com tom autoritário e o conhecido finalmente olhou para ele.
                A repulsa tomou conta de Ralph e ele teve vontade de virar o rosto ante àquela visão. O homem gordo e redondo como um barril, estava com toda a pele de uma coloração cinza-azulada e coberta de feridas que nunca cicatrizavam. Os olhos vazios e amarelados remetiam a alguém muito doente, assim como os cabelos ralos e oleosos que lhe caiam pela face. O estado era pior no extremo dos braços, que estavam enegrecidos e pareciam podres. Seu estado lembrava o de um morto em estado avançado de decomposição.
                No entanto, o que chamava a atenção antes de tudo era o que emitia a luz amarelada que ele havia visto antes. No tronco do Chefe uma marca, parecendo alguma letra de um alfabeto esquecido, semelhante a um “N” cortado por uma linha horizontal que circundava o corpo, da largura de uma régua e mais profunda que as outras feridas que pontilhavam o corpo. O jovem não havia encontrado muitos sobreviventes nesse estado, mas sabia que enquanto a marca emitisse alguma luz ainda havia consciência no afetado e assim, chance de reversão. Com esse pensamento, ele tomou uma decisão.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Crônicas da Nova Era - I


                Ali estava ele, caminhado em meio às ruínas de mais uma cidade que havia sido tragada pela terra e que por milagre, ou mágica, ele não sabia dizer, ficou escondida dentro de uma caverna. Ao invés de ter sido soterrada, a cidade simplesmente afundou e foi tapada com terra, como se faz quando se prepara uma armadilha camuflada. O túnel que levava a antiga metrópole foi descoberto por acaso, com um tropeço e um tombo seguido de 20 metros de descida rolando.
                A saída do ar quente e seco do deserto atômico e a entrada no ar úmido e fresco do subterrâneo foi o que lhe despertou o interesse por aquele túnel. Estava cansado de passar calor e resolveu olhar um pouco por ali. Ajeitou a camiseta vermelha, a mochila preta e tirou a poeira dos ombros e do resto do corpo todo. Colocou a mão na cintura e percebeu que a arma que carregava ali, uma pistola semi-automática leve, do modelo usado pela polícia quando ela ainda existia, não estava no lugar. Olhou em volta e viu um robô segurando a arma apontada para ele. Caminhou até ele e pegou a arma que estava sendo devolvida. Levantou um pouco os braços e avaliou a situação. A calça continuava intacta, a faca enferrujada à esquerda da cintura e a 9mm na direita. Os sapatos de caminhada estavam bem amarrados e quase novos. Tudo pronto para continuar a expedição.
                Com um sinal, recomeçou a andar túnel adentro, seguido pelo pequeno robô vermelho, mais parecido com uma grande caixa com esteiras de andar. Assim que a luz começou a ficar fraca demais, o robô ligou duas lanternas. Com a mão direita, o rapaz pegou uma das lanternas do pequeno autômato e começou a rastrear um lado do túnel, enquanto a máquina fazia o mesmo com o outro lado.
                A descida foi rápida, aproximadamente 20 minutos e não teve surpresas. O túnel era bem seguro e em alguns momentos ele teve a sensação de que a pedra tinha sido escavada a mão. Ao chegar ao final dele, teve certeza. A visão da cidade subterrânea o fez perder o fôlego por alguns instantes e o seu companheiro soltou um apito baixo de assombro. Eles já haviam passado por diversas cidades grandes antes, mas aquela era enorme, com edifícios muito altos e estava embaixo da terra.
                Por muito tempo eles exploraram a cidade, entraram em algumas construções inclusive, mas em nenhum momento se arriscaram a subir nos altos prédios. Encontraram algumas coisas úteis em armazéns e antigos mini-mercados. Procuraram por uma loja de armas, mas isso poderia levar muitas horas ou talvez até alguns dias.
                Enquanto andavam, se depararam com uma praça e a segunda grande surpresa do dia: árvores. Não havia como entender a existência daquelas árvores ali, verdes e saudáveis, mas a presença delas era a prova incontestável da sua existência. Talvez o ar ali ainda fosse mais puro e tivesse oxigênio suficiente, ou então o solo fosse muito rico em minerais, mas aquelas eram definitivamente plantas saudáveis e algumas das últimas remanescentes no planeta.
                Andando entre as árvores antigas, anteriores ao cataclismo mundial, eles avançaram para o interior do parque. Aos poucos começaram a ver árvores que se destacavam das outras por não serem tão cheias de vida e aos poucos encontraram algumas caídas e secas, até que em alguns pontos a terra estava claramente estéril. Após alguns metros andando sobre a terra sem vida, o terreno começou a ter um leve aclive. No topo da elevação, havia um monólito gigantesco, tão alto quanto muitos dos prédios que haviam visto no caminho.
                De frente para o caminho de onde haviam vindo havia uma abertura na rocha e ao se aproximarem, puderam ver que havia algo parecido com uma câmara no seu interior. Chegando mais perto, puderam ver que no seu interior havia uma escada que descia em espiral para o centro do planeta. Parados em frente ao umbral, humano e máquina procuravam na memória por algo que fosse parecido com aquilo em algum tempo, mas a busca foi em vão. Não havia registro vivo de nada parecido com aquilo.
                Com um aceno de mão, o robô recuou alguns metros e se fixou de frente para a entrada. Com um ruído metálico, dois pequenos compartimentos se abriram nas laterais da sua lataria e de dentro dele emergiram dois braços de ferro empunhando pequenas submetralhadoras que ficaram fixamente apontadas para a entrada. Satisfeito, ele fez um aceno com a cabeça e entrou no monólito.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Crônicas da nova era

Bem... Começando um post de maneira diferente, com algumas palavras minhas. Sei que não é muita gente que lê isso, mas eu gosto de escrever assim mesmo. A idéia para essa história, que não tem vínculo nenhum com a aventura de Fingham e seus companheiros, surgiu com um sonho que eu achei um tanto quanto doido, e que ficou gravado na minha memória com um filme. Então, a partir daqui, vou fazer alguns posts com essa história que não sei se será tão comprida quanto a âncora, mas que vai ser escrita com muito carinho. Espero que gostem.


Crônicas da Nova Era


Existe uma cura para todas as mazelas da humanidade. Mas ninguém quer reconhecer a morte como o fim dos sofrimentos. Alguns buscam se conformar com a idéia de que existe um lugar melhor para onde a alma vai após a morte, outros dizem que ela volta a renascer em outro corpo em um círculo interminável em busca da pureza de alma. É a busca para explicar o fim, que nada mais é que o fim. Pelo menos um povo percebeu isso, e buscou a cura para todos. Por isso deixou de existir.