domingo, 22 de julho de 2012

Crônicas da Nova Era - VII


                Uma manhã ele acordou com algo úmido tocando seu rosto. Ao abrir os olhos, deu de cara com algo branco e peludo, com grandes olhos verdes, cheirando seu rosto. Antes que pudesse fazer qualquer coisa para afastar aquilo, que ainda não havia conseguido descobrir o que era, ele viu algo acima de si, tapando o sol. Era alguém, mas a primeira coisa que viu, foi o grande revólver prateado ao lado da perna, pendurado em um cinturão um pouco caído na cintura. E que cintura. Seu olhar voltou para a perna. A calça era uma jeans justa e realçava a coxa aonde o revólver se apoiava. Começou a olhar para cima, enquanto continuava sendo farejado. O olhar voltou para a cintura e viu as mãos que nela estavam apoiadas, com dedos finos e firmes. Era uma mulher, como ele já havia notado, magra e a blusa branca colada ao corpo realçava isso. Os seios não eram grandes, mas tampouco pequenos. Com um cálculo mental ele supôs que caberiam perfeitamente em uma mão adulta. O olhar continuou subindo e encontrou alguns cabelos castanhos caídos sobre os ombros, alguns tapando o pescoço devido ao vento. E então ele chegou ao rosto.
                Ralph já havia encontrado mulheres pelo seu caminho antes e havia algumas na sua pequena cidade. Nenhuma delas, no entanto era tão bela quanto a que estava de pé sobre ele agora. O rosto fino, bem delineado tinha um tom claro de moreno. Os lábios, curvados em um pequeno sorriso, pareciam aveludados e eram carnudos, mas não muito grandes. No lábio superior, ele pode ver, havia um pequeno sinal, que deve ser imperceptível para a maioria das pessoas. O nariz arredondado e com a ponta um pouco arrebitada dava um ar de superior. Os grandes olhos que observavam curiosos e divertidos o rapaz descabelado logo abaixo, eram da cor do mel, e brilhavam como âmbar com o toque da luz do sol. As orelhas estavam cobertas pelo cabelo ondulado, mas ele pode ver um pequeno brilho sob eles e percebeu que ela usava brincos. Uma mecha de cabelo caiu no rosto da visitante de seu ponto de descanso e ele voltou a realidade.
                Se virou então para o nariz que continuava absorto nos novos cheiros que encontrava no seu rosto. Distanciando um pouco o rosto, pode ver que era um gato, embora nunca houvesse visto um antes sem ser em livros. Saiu de dentro de seu saco de dormir e deu mais uma olhada no gato e viu que era branco do pescoço até a barriga, enquanto toda a parte superior de seu corpo era negra como a noite.
                Terminou de sair do saco de dormir e olhou para o seu próprio companheiro, passivo como uma rocha. Se ele estava assim e aqueles dois estavam de pé, deviam ser amigáveis. Ou conseguiram desativar o robô sem danificá-lo, pois continuava igual a noite anterior. Ao fazer menção de se levantar, uma mão amiga surgiu ao seu lado para que ajudar na árdua tarefa de se levantar de manhã. Ele olhou para cima e viu aquele sorriso que nunca mais iria esquecer. Ao sorrir, os olhos dela se fecharam um pouco e ele pode ver como ela tinha as bochechas rosadas e os dentes alinhados. Segurou a mão dela e foi puxado com força e firmeza, nada mais do que esperaria de alguém que se aventura pelo mundo, quando o mundo está naquele estado, mas a mão também era macia e foi difícil largá-la após estar de pé.
                Com um aceno de cabeça ele agradeceu a ajuda e começou a guardar suas coisas. Enrolou o saco de dormir e o colocou dentro da mochila, dando lugar ao tirar as calças de dentro dela. Apenas nesse momento se deu conta de que não estava usando-as. Se virou parar a moça e viu que ela olhava com grande interesse, e um sorriso nos lábios, para suas pernas e sua bunda. Ele virou o rosto rapidamente e enrubesceu, enquanto colocava rapidamente as calças. Sentou-se no chão e calçou os tênis reforçados. Quando o fez, notou que ela usava um do mesmo tipo. Depois disso levantou-se, ajustou à perna direita o coldre da arma e a esquerda a faca com a bainha. De dentro de outro bolso da mochila tirou a 9mm e verificou se estava tudo certo, colocando-a em seguida no coldre.
                Com tudo pronto, foi até o pequeno robô e acionou um botão que fez os seus painéis solares se abrirem na sua parte traseira. Virou-se para a garota e aproximou-se dela, estendendo a mão. “Ralph” disse ele e ela respondeu “Mika”, enquanto apertava de maneira firme a sua mão. O gato roçou na perna dela que, sorrindo, disse “E Sombra”, apresentando o gato, que ronronou alto ao ouvir seu nome. Com um aceno de cabeça, ele soltou a mão dela e colocou a mochila nas costas. Ela foi até uma pedra próxima e tirou de trás dela uma bolsa cuja alça colocou sobre o ombro esquerdo, com a bolsa do lado direito, lado contrário do grande revólver. Com um pulo, o gato subiu na bolsa e se aninhou ali.
                Passaram a vagar juntos e a moça percebeu que Ralph seguidamente olhava em volta e checava o robô. Por um tempo ela acompanhou essa rotina com interesse e curiosidade, e então passou a achar graça da situação. Ela pousou a mão sobre o seu ombro e lhe disse pra não se preocupar, que Sombra cuidaria de achar inimigos para eles, melhor do que qualquer máquina faria.

Por dois dias eles caminharam antes que o gato alertasse para qualquer perigo. Nesses dois dias, eles aprenderam muito um com o outro. Naquela terra sem água, os dois estavam curiosos para saber como o companheiro fazia para ter um estoque que fosse suficiente para a viagem de ida e volta. Ralph tinha seu robô, mas ele não era grande o suficiente para um estoque que uma viagem a pé e de muitos dias requeria. Ela, no entanto, tinha apenas uma bolsa e um gato. O rapaz mostrou um compartimento do robô, na parte inferior traseira, que continha um recipiente para água que era mantido refrigerado pelos seus sistemas, mas que só armazenava até cinco litros. Em conjunto com esse sistema, ele possuía um sistema de filtragem de urina, que separava todas as impurezas e reciclava a água. Essas impurezas tornavam-se elementos úteis de volta no vilarejo, já que eram mantidas em um estado sólido e separadas ao seu estado fundamental, sem ligações entre as substâncias. A garota achou o processo muito interessante, mas não se interessou em provar a água e mostrou como ela fazia. Ela então abriu a bolsa e mostrou seu interior para Ralph, que não entendeu o que via. A bolsa era incrivelmente grande por dentro, parecendo mais um armazém do que uma bolsa propriamente dita. Ela explicou que essa era uma tecnologia de controle do espaço, conectando o interior da bolsa dela diretamente com um depósito no lugar de onde ela vinha. Um portal, em outras palavras. Caso ela encontrasse algo importante para o conhecimento geral, ela poderia deixar um bilhete que alguém encontraria quando fosse repor o estoque. Ela não podia, no entanto, conversar com quem estivesse lá e o portal não se abria caso alguém estivesse naquela sala, por questões de segurança. Desse jeito, ela nunca precisava carregar muita coisa e mesmo assim nada lhe faltava.
                Com essa garota Ralph gostou de falar e conversaram muito, principalmente sobre a organização Angelus, que era desconhecida dele. O assunto veio a tona quando ele foi trocar sua camiseta e ela viu uma tatuagem nas costas do rapaz, próxima ao ombro direito e comentou que ela era da Asa Esquerda. Ele não entendeu do que ela falava, mas ela já esperava isso e riu. Ela lhe contou do dia que encontrou um homem da Auréola que lhe contou sobre os dias antes da terra virar um grande deserto e de como ele e ela haviam sobrevivido. A história havia se perdido, mas não para a Auréola que era a inteligência de uma organização mundial que havia sido criada na época em que os primeiros Amaldiçoados, como ele chamou, apareceram. O seu intuito era proteger as pessoas, e os seus integrantes eram oriundos de organizações militares que se dividiram em diversos países. A imagem de um arcanjo foi usada para dividir as forças e identificar as tropas. As asas eram as tropas de infantaria, a auréola era a inteligência e comunicações, o manto era a divisão responsável pelos civis, a espada era a artilharia e o escudo eram as divisões de blindados. Toda a conversa foi gravada pelo pequeno robô para que essas informações pudessem ser levadas de volta ao povoado.
                Como os dois suspeitavam um do outro, o verdadeiro objetivo deles era mapear a maior região possível. A ideia era encontrar outros povoados para poder criar uma rede de ajuda mútua, pois naqueles dias nada era fácil. Os dois compararam o que já havia conseguido fazer até o momento e ao localizarem o ponto onde haviam se encontrado, puderam unir as duas regiões mapeadas, cobrindo uma área grande o suficiente para pelo menos três expedições como aquela. Decidiram, no entanto, continuar a viagem ao invés de retornar, pois assim seria muito mais proveitoso, ainda mais com a localização dos dois povoados. Ralph perguntou sobre o mapa do homem da Auréola, mas ela sacudiu a cabeça e disse que ele viajava somente com a ajuda de uma bússola, sem precisar de mapas, apenas procurando os outros vilarejos. Dizia que queria reconectar todas com sinal de rádio, mas que precisaria ir pessoalmente a cada uma delas.
                Eles falaram sobre o lugar de onde vieram e descobriram que havia muitas diferenças nas tecnologias dos dois locais. Enquanto na Direita, como eles passaram a se referir a morada de Ralph, eles contavam com a ajuda de muitos pequenos robôs como o que viajava com o rapaz e outros maiores utilizados para construções e reparos nos edifícios e barricadas, na Esquerda eles tinha um largo campo de painéis solares e inclusive algumas turbinas eólicas, pois era necessária muita energia para utilizar o aparato que ligava a bolsa de Mika com o depósito e esse era um dos pequenos que eles possuíam.
                O interesse de Ralph pelo modo de funcionamento do aparelho era grande e ele queria saber como era sua construção, mas Mika não soube lhe dizer. Disse que seu negócio era chumbo e mapeamento, e que ela acreditava que ninguém saberia montar um novo aparelho daqueles, apenas conservar o existente. Para saciar um pouco da curiosidade, ela lhe mostrou o aparelho que trazia consigo. Era pequeno e branco, aproximadamente do tamanho e formato de um ovo, mas com um dos lados chato e com uma coloração diferente, um azul pulsante. Não havia sinal de divisórias e muito menos de parafusos no aparelho e após um breve exame ele devolveu-o a garota.
                Quando a noite chegou, eles se deitaram lado a lado e Sombra pulou para a cabeça do robozinho. Eles olharam as estrelas e lembraram que os mais velhos contavam que por muito tempo não foi possível ver as estrelas como eles agora faziam. Culpa das grandes bombas e dos malditos homens podres. As constelações dançavam no céu e a lua fazia vagarosamente o seu caminho, trazendo o sono para os dois, que dormiram quase ao mesmo tempo, com as mãos próximas o suficiente para sentirem o calor um do outro, mas sem tocá-las.
                Pela manhã, tomaram um café da manhã com pão fresco, que Mika pegou de sua bolsa, e água. No meio da manhã, viram algo novo para ambos, um pássaro voando alto no céu. Por um bom tempo eles ficaram observando o voo do animal e, numa decisão por instinto, decidiram seguir o pássaro. Ralph já havia visto imagens de pássaros em alguns livros, mas não imaginava que eles poderiam voar tão alto ou tão rápido. Assim, eles logo o perderam de vista, mas continuaram seguindo caminho na direção em que ele desapareceu.
                Houve uma brisa agradável durante todo o dia e ambos caminharam com um leve sorriso no rosto, tanto pela brisa confortante quanto pela companhia agradável. Ao final da tarde, conforme o sol ia se pondo, eles puderam divisar a forma de uma cadeia de montanhas ao longe. Perto do horizonte, a luz do sol fez com que outra forma ficasse visível ao longe, ao mesmo tempo em que as montanhas se tornaram visíveis. Antes de verem qualquer coisa, porém, Sombra já estava com o pelo eriçado e balançava a cauda nervosamente. Ao se aproximarem mais, a gata passou a soprar e após alguns instantes o robô de Ralph emitiu o som de uma sirene, mas baixo o suficiente para que só eles pudessem ouvir.  Ele impediu Mika com uma mão e com a outra sacou a pistola, logo em seguida fez um sinal com a mão livre e o robô exibiu uma de suas submetralhadoras. Ainda muito longe para disparar com precisão, eles passaram a avançar com cautela, até que a garota passou a frente deles de revólver em punho.
                Ela disparou. Um instante depois o alvo havia sido abatido, um tiro preciso no centro da cabeça. O ar ainda ecoava o som do tiro, quando o amaldiçoado chegou ao chão e o grande revólver voltava ao coldre, já com a bala reposta. O assombro era visível no rosto do rapaz e o orgulho era quase palpável ao redor da moça. Ele guardou a pistola e não fez perguntas, enquanto o robô já tinha saído do seu estado de alerta. Em poucos segundos, tudo tinha voltado ao normal.
                Seguiram em frente e passaram pelo corpo imóvel, em direção as montanhas. Uma leve brisa soprava as suas costas, empurrando-os e a escuridão da noite cresceu lentamente. Montaram seu acampamento improvisado e esperaram. A lua então surgiu no horizonte iluminando a planície como se fosse dia. Sentaram-se lado a lado contemplando a figura negra que a cordilheira desenhava ao longe. Seguindo no mesmo ritmo, chegariam até o sopé das montanhas no próximo dia e sentiram que seria o último dia juntos. Nada falaram aquela noite e dormiram lado a lado novamente.
                Ao amanhecer comeram o desjejum e passaram a caminhar logo cedo. O silêncio só era quebrado quando o robozinho passava por alguns pedregulhos com sua esteira. No início da tarde, estavam chegando ao fim da planície e início da cadeia de montanhas. Por um instante ambos hesitaram no próximo passo, mas, sem uma palavra, cada um seguiu para um lado, seguindo o inicio da serra sem olhar para trás. Se iriam se reunir novamente ou não, isso deixaram a cargo do destino, mas ambos odiavam despedidas e naquela noite derramaram suas lágrimas sozinhos.

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