Uma manhã ele acordou com algo úmido tocando seu rosto. Ao abrir os olhos, deu de cara com algo branco e
peludo, com grandes olhos verdes, cheirando seu rosto. Antes que pudesse fazer
qualquer coisa para afastar aquilo, que ainda não havia conseguido descobrir o
que era, ele viu algo acima de si, tapando o sol. Era alguém, mas a primeira
coisa que viu, foi o grande revólver prateado ao lado da perna, pendurado em um
cinturão um pouco caído na cintura. E que cintura. Seu olhar voltou para a
perna. A calça era uma jeans justa e realçava a coxa aonde o revólver se
apoiava. Começou a olhar para cima, enquanto continuava sendo farejado. O olhar
voltou para a cintura e viu as mãos que nela estavam apoiadas, com dedos finos
e firmes. Era uma mulher, como ele já havia notado, magra e a blusa branca
colada ao corpo realçava isso. Os seios não eram grandes, mas tampouco
pequenos. Com um cálculo mental ele supôs que caberiam perfeitamente em uma mão
adulta. O olhar continuou subindo e encontrou alguns cabelos castanhos caídos
sobre os ombros, alguns tapando o pescoço devido ao vento. E então ele chegou
ao rosto.
Ralph já havia encontrado
mulheres pelo seu caminho antes e havia algumas na sua pequena cidade. Nenhuma
delas, no entanto era tão bela quanto a que estava de pé sobre ele agora. O
rosto fino, bem delineado tinha um tom claro de moreno. Os lábios, curvados em
um pequeno sorriso, pareciam aveludados e eram carnudos, mas não muito grandes.
No lábio superior, ele pode ver, havia um pequeno sinal, que deve ser
imperceptível para a maioria das pessoas. O nariz arredondado e com a ponta um
pouco arrebitada dava um ar de superior. Os grandes olhos que observavam
curiosos e divertidos o rapaz descabelado logo abaixo, eram da cor do mel, e
brilhavam como âmbar com o toque da luz do sol. As orelhas estavam cobertas
pelo cabelo ondulado, mas ele pode ver um pequeno brilho sob eles e percebeu
que ela usava brincos. Uma mecha de cabelo caiu no rosto da visitante de seu
ponto de descanso e ele voltou a realidade.
Se virou então para o nariz que
continuava absorto nos novos cheiros que encontrava no seu rosto. Distanciando
um pouco o rosto, pode ver que era um gato, embora nunca houvesse visto um
antes sem ser em livros. Saiu de dentro de seu saco de dormir e deu mais uma
olhada no gato e viu que era branco do pescoço até a barriga, enquanto toda a
parte superior de seu corpo era negra como a noite.
Terminou de sair do saco de
dormir e olhou para o seu próprio companheiro, passivo como uma rocha. Se ele
estava assim e aqueles dois estavam de pé, deviam ser amigáveis. Ou conseguiram
desativar o robô sem danificá-lo, pois continuava igual a noite anterior. Ao
fazer menção de se levantar, uma mão amiga surgiu ao seu lado para que ajudar
na árdua tarefa de se levantar de manhã. Ele olhou para cima e viu aquele
sorriso que nunca mais iria esquecer. Ao sorrir, os olhos dela se fecharam um
pouco e ele pode ver como ela tinha as bochechas rosadas e os dentes alinhados.
Segurou a mão dela e foi puxado com força e firmeza, nada mais do que esperaria
de alguém que se aventura pelo mundo, quando o mundo está naquele estado, mas a
mão também era macia e foi difícil largá-la após estar de pé.
Com um aceno de cabeça ele
agradeceu a ajuda e começou a guardar suas coisas. Enrolou o saco de dormir e o
colocou dentro da mochila, dando lugar ao tirar as calças de dentro dela.
Apenas nesse momento se deu conta de que não estava usando-as. Se virou parar a
moça e viu que ela olhava com grande interesse, e um sorriso nos lábios, para
suas pernas e sua bunda. Ele virou o rosto rapidamente e enrubesceu, enquanto
colocava rapidamente as calças. Sentou-se no chão e calçou os tênis reforçados.
Quando o fez, notou que ela usava um do mesmo tipo. Depois disso levantou-se,
ajustou à perna direita o coldre da arma e a esquerda a faca com a bainha. De
dentro de outro bolso da mochila tirou a 9mm e verificou se estava tudo certo,
colocando-a em seguida no coldre.
Com tudo pronto, foi até o
pequeno robô e acionou um botão que fez os seus painéis solares se abrirem na
sua parte traseira. Virou-se para a garota e aproximou-se dela, estendendo a
mão. “Ralph” disse ele e ela respondeu “Mika”, enquanto apertava de maneira
firme a sua mão. O gato roçou na perna dela que, sorrindo, disse “E Sombra”,
apresentando o gato, que ronronou alto ao ouvir seu nome. Com um aceno de
cabeça, ele soltou a mão dela e colocou a mochila nas costas. Ela foi até uma
pedra próxima e tirou de trás dela uma bolsa cuja alça colocou sobre o ombro
esquerdo, com a bolsa do lado direito, lado contrário do grande revólver. Com
um pulo, o gato subiu na bolsa e se aninhou ali.
Passaram a vagar juntos e a moça
percebeu que Ralph seguidamente olhava em volta e checava o robô. Por um tempo
ela acompanhou essa rotina com interesse e curiosidade, e então passou a achar
graça da situação. Ela pousou a mão sobre o seu ombro e lhe disse pra não se
preocupar, que Sombra cuidaria de achar inimigos para eles, melhor do que
qualquer máquina faria.
Por dois dias eles caminharam antes que o gato alertasse para qualquer
perigo. Nesses dois dias, eles aprenderam muito um com o outro. Naquela terra
sem água, os dois estavam curiosos para saber como o companheiro fazia para ter
um estoque que fosse suficiente para a viagem de ida e volta. Ralph tinha seu
robô, mas ele não era grande o suficiente para um estoque que uma viagem a pé e
de muitos dias requeria. Ela, no entanto, tinha apenas uma bolsa e um gato. O
rapaz mostrou um compartimento do robô, na parte inferior traseira, que
continha um recipiente para água que era mantido refrigerado pelos seus
sistemas, mas que só armazenava até cinco litros. Em conjunto com esse sistema,
ele possuía um sistema de filtragem de urina, que separava todas as impurezas e
reciclava a água. Essas impurezas tornavam-se elementos úteis de volta no
vilarejo, já que eram mantidas em um estado sólido e separadas ao seu estado
fundamental, sem ligações entre as substâncias. A garota achou o processo muito
interessante, mas não se interessou em provar a água e mostrou como ela fazia.
Ela então abriu a bolsa e mostrou seu interior para Ralph, que não entendeu o
que via. A bolsa era incrivelmente grande por dentro, parecendo mais um armazém
do que uma bolsa propriamente dita. Ela explicou que essa era uma tecnologia de
controle do espaço, conectando o interior da bolsa dela diretamente com um
depósito no lugar de onde ela vinha. Um portal, em outras palavras. Caso ela
encontrasse algo importante para o conhecimento geral, ela poderia deixar um
bilhete que alguém encontraria quando fosse repor o estoque. Ela não podia, no
entanto, conversar com quem estivesse lá e o portal não se abria caso alguém
estivesse naquela sala, por questões de segurança. Desse jeito, ela nunca
precisava carregar muita coisa e mesmo assim nada lhe faltava.
Com essa garota Ralph gostou de
falar e conversaram muito, principalmente sobre a organização Angelus, que era
desconhecida dele. O assunto veio a tona quando ele foi trocar sua camiseta e
ela viu uma tatuagem nas costas do rapaz, próxima ao ombro direito e comentou
que ela era da Asa Esquerda. Ele não entendeu do que ela falava, mas ela já
esperava isso e riu. Ela lhe contou do dia que encontrou um homem da Auréola
que lhe contou sobre os dias antes da terra virar um grande deserto e de como
ele e ela haviam sobrevivido. A história havia se perdido, mas não para a
Auréola que era a inteligência de uma organização mundial que havia sido criada
na época em que os primeiros Amaldiçoados, como ele chamou, apareceram. O seu
intuito era proteger as pessoas, e os seus integrantes eram oriundos de
organizações militares que se dividiram em diversos países. A imagem de um
arcanjo foi usada para dividir as forças e identificar as tropas. As asas eram
as tropas de infantaria, a auréola era a inteligência e comunicações, o manto
era a divisão responsável pelos civis, a espada era a artilharia e o escudo
eram as divisões de blindados. Toda a conversa foi gravada pelo pequeno robô
para que essas informações pudessem ser levadas de volta ao povoado.
Como os dois suspeitavam um do
outro, o verdadeiro objetivo deles era mapear a maior região possível. A ideia
era encontrar outros povoados para poder criar uma rede de ajuda mútua, pois
naqueles dias nada era fácil. Os dois compararam o que já havia conseguido
fazer até o momento e ao localizarem o ponto onde haviam se encontrado, puderam
unir as duas regiões mapeadas, cobrindo uma área grande o suficiente para pelo
menos três expedições como aquela. Decidiram, no entanto, continuar a viagem ao
invés de retornar, pois assim seria muito mais proveitoso, ainda mais com a
localização dos dois povoados. Ralph perguntou sobre o mapa do homem da
Auréola, mas ela sacudiu a cabeça e disse que ele viajava somente com a ajuda
de uma bússola, sem precisar de mapas, apenas procurando os outros vilarejos.
Dizia que queria reconectar todas com sinal de rádio, mas que precisaria ir
pessoalmente a cada uma delas.
Eles falaram sobre o lugar de
onde vieram e descobriram que havia muitas diferenças nas tecnologias dos dois
locais. Enquanto na Direita, como eles passaram a se referir a morada de Ralph,
eles contavam com a ajuda de muitos pequenos robôs como o que viajava com o
rapaz e outros maiores utilizados para construções e reparos nos edifícios e
barricadas, na Esquerda eles tinha um largo campo de painéis solares e
inclusive algumas turbinas eólicas, pois era necessária muita energia para
utilizar o aparato que ligava a bolsa de Mika com o depósito e esse era um dos
pequenos que eles possuíam.
O interesse de Ralph pelo modo
de funcionamento do aparelho era grande e ele queria saber como era sua
construção, mas Mika não soube lhe dizer. Disse que seu negócio era chumbo e
mapeamento, e que ela acreditava que ninguém saberia montar um novo aparelho
daqueles, apenas conservar o existente. Para saciar um pouco da curiosidade,
ela lhe mostrou o aparelho que trazia consigo. Era pequeno e branco,
aproximadamente do tamanho e formato de um ovo, mas com um dos lados chato e
com uma coloração diferente, um azul pulsante. Não havia sinal de divisórias e
muito menos de parafusos no aparelho e após um breve exame ele devolveu-o a
garota.
Quando a noite chegou, eles se
deitaram lado a lado e Sombra pulou para a cabeça do robozinho. Eles olharam as
estrelas e lembraram que os mais velhos contavam que por muito tempo não foi
possível ver as estrelas como eles agora faziam. Culpa das grandes bombas e dos
malditos homens podres. As constelações dançavam no céu e a lua fazia
vagarosamente o seu caminho, trazendo o sono para os dois, que dormiram quase
ao mesmo tempo, com as mãos próximas o suficiente para sentirem o calor um do
outro, mas sem tocá-las.
Pela manhã, tomaram um café da
manhã com pão fresco, que Mika pegou de sua bolsa, e água. No meio da manhã,
viram algo novo para ambos, um pássaro voando alto no céu. Por um bom tempo
eles ficaram observando o voo do animal e, numa decisão por instinto, decidiram
seguir o pássaro. Ralph já havia visto imagens de pássaros em alguns livros,
mas não imaginava que eles poderiam voar tão alto ou tão rápido. Assim, eles
logo o perderam de vista, mas continuaram seguindo caminho na direção em que
ele desapareceu.
Houve uma brisa agradável
durante todo o dia e ambos caminharam com um leve sorriso no rosto, tanto pela
brisa confortante quanto pela companhia agradável. Ao final da tarde, conforme
o sol ia se pondo, eles puderam divisar a forma de uma cadeia de montanhas ao
longe. Perto do horizonte, a luz do sol fez com que outra forma ficasse visível
ao longe, ao mesmo tempo em que as montanhas se tornaram visíveis. Antes de
verem qualquer coisa, porém, Sombra já estava com o pelo eriçado e balançava a
cauda nervosamente. Ao se aproximarem mais, a gata passou a soprar e após alguns instantes o robô de Ralph emitiu o som
de uma sirene, mas baixo o suficiente para que só eles pudessem ouvir. Ele impediu Mika com uma mão e com a outra
sacou a pistola, logo em seguida fez um sinal com a mão livre e o robô exibiu
uma de suas submetralhadoras. Ainda muito longe para disparar com precisão,
eles passaram a avançar com cautela, até que a garota passou a frente deles de
revólver em punho.
Ela disparou. Um instante depois
o alvo havia sido abatido, um tiro preciso no centro da cabeça. O ar ainda
ecoava o som do tiro, quando o amaldiçoado chegou ao chão e o grande revólver
voltava ao coldre, já com a bala reposta. O assombro era visível no rosto do
rapaz e o orgulho era quase palpável ao redor da moça. Ele guardou a pistola e
não fez perguntas, enquanto o robô já tinha saído do seu estado de alerta. Em
poucos segundos, tudo tinha voltado ao normal.
Seguiram em frente e passaram
pelo corpo imóvel, em direção as montanhas. Uma leve brisa soprava as suas
costas, empurrando-os e a escuridão da noite cresceu lentamente. Montaram seu
acampamento improvisado e esperaram. A lua então surgiu no horizonte iluminando
a planície como se fosse dia. Sentaram-se lado a lado contemplando a figura
negra que a cordilheira desenhava ao longe. Seguindo no mesmo ritmo, chegariam
até o sopé das montanhas no próximo dia e sentiram que seria o último dia
juntos. Nada falaram aquela noite e dormiram lado a lado novamente.
Ao amanhecer comeram o desjejum
e passaram a caminhar logo cedo. O silêncio só era quebrado quando o robozinho
passava por alguns pedregulhos com sua esteira. No início da tarde, estavam
chegando ao fim da planície e início da cadeia de montanhas. Por um instante
ambos hesitaram no próximo passo, mas, sem uma palavra, cada um seguiu para um
lado, seguindo o inicio da serra sem olhar para trás. Se iriam se reunir
novamente ou não, isso deixaram a cargo do destino, mas ambos odiavam
despedidas e naquela noite derramaram suas lágrimas sozinhos.
Super curti! Quero ver a continuação.
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