sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Crônicas da Nova Era - VIII


                Ralph guardou o revólver pesado na cintura, sem saber ao certo o porque, já que a arma não teria utilidade uma vez que ele não estava levando munição para ela. Por algum motivo, o peso da arma na cintura lhe foi reconfortante e melhorou seu humor, que ao contrário da maior parte do tempo, já se encontrava em bom estado. Ele se observou um pouco com o revólver na cintura e se virou para seu companheiro e deu uma volta, esperando uma opinião que sabia que não viria. Mesmo assim, não pode deixar de se surpreender ao escutar o som das lentes sendo ajustadas ao se virar de costas, com o revólver totalmente exposto para o robô. O rapaz deu um leve sorriso e sentou novamente, tirando a arma da cintura e deixando-a próxima a fogueira, observando o modo como o reflexo das chamas pareciam dançar no barril e no cano da arma. O ronco do seu estômago lhe lembrou que não havia comido ainda e preparou a janta.
                Ao terminar de comer, andou ao redor da praça, vendo as diferentes espécies de árvores que conseguiram sobreviver ali. No centro da praça estava um enorme salgueiro, maior do que qualquer coisa natural que ele já havia visto, com exceção, talvez, do monólito. Se aproximou e tocou a árvore, e pode jurar que sentiu o ar se adensar e um pulsar vindo do chão por um instante. Ao olhar em volta, tudo continuava igual e ao mesmo tempo diferente. As cores pareciam mais vivas e o ar mais fresco. Sem tirar a mão do tronco, deu a volta no salgueiro e viu marcas do tempo e do homem. Pontos em que a casca era mais fina e algumas cicatrizes deixadas por casais apaixonados. Mesmo após tanto tempo sob a terra, a grande árvore parecia continuar crescendo lentamente. De uma de suas folhas caiu uma gota que a terra absorveu rapidamente, mas não como a terra da superfície que tem sede.
                Subitamente, foi acometido da necessidade de se aproximar mais da árvore e antes que pudesse pensar, a abraçou. Não entendeu o motivo de fazer isso e não pensou no assunto, pois o que sentiu foi a melhor sensação de sua vida. De repente ele era um com a terra sob seus pés e o salgueiro nos seus braços. Ele via o vento e ouvia os sussurros das árvores ao seu redor. E então, a tristeza de todas as coisas. O planeta estava triste, machucado e a culpa era deles. Dos humanos. A culpa era sua. Os sussurros se transformaram em vozes zangadas e a terra sob seus pés queria suga-lo como havia feito com a gota de água. O terror tomou conta de seu corpo. Aquilo não era algo para que estivesse preparado. Enfrentaria qualquer inimigo, vivo ou escravizado, sem piscar, mas agora as lágrimas brotaram de seus olhos e ele se sentiu indefeso. Ele sabia que iria ser punido ali, naquela cidade subterrânea, pelos crimes da humanidade contra o planeta. E então, quando as vozes passaram a gritar, e a força em suas pernas começava a falhar, ele agarrou-se com mais força ao salgueiro e sentiu o calor de um abraço retribuir o seu toque. Nesse instante as vozes se calaram e tudo se acalmou, ele se sentia protegido, como se estivesse nos braços da mãe. Olhou para cima e os galhos pareciam estar curvados ao seu redor, criando uma parede protetora. Um leve tremor passou pelo tronco da árvore e avançou pelos galhos, fazendo-os tremer e algumas folhas caírem. As vozes voltaram dessa vez, parecidas com pedidos de desculpas envergonhados e o medo passou.
                Aos poucos, ele se afastou da grande árvore, mas a sensação de proximidade e o calor continuavam presentes ao seu redor. Ele se afastou lentamente, com o respeito que o local merecia, e reparou que havia flores pelo caminho. Pensou em pegar uma, mas lembrou-se da fúria que havia presenciado a poucos instantes e mudou de ideia. Ao chegar à borda da praça, assoviou por três segundos e esperou até que o pequeno robô chegasse. Mandou que ele filmasse e tirasse fotos das árvores, mas sem entrar no perímetro do parque. Sentiu que se uma máquina cruzasse aquela linha que separava o que era fruto do homem e o que era fruto direto da terra, o tênue equilíbrio existente naquela caverna acabaria e tudo desmoronaria, não só metaforicamente. Esperou que a tarefa estivesse terminada e voltou para perto da fogueira, que estava quase morrendo. Reavivou as chamas com algumas tábuas de uma construção e entrou no seu saco de dormir. Demorou a dormir e naquela noite seu sono foi agitado e cheio de sonhos que não compreendeu ao acordar.
                Ao acordar, guardou as coisas e comeu um pedaço de carne seca com um pouco de água. Havia muito para contar e mostrar, era hora de voltar para casa. Juntou as coisas e saiu da cidade. A luz do sol foi ofuscante por alguns instantes, pois no dia anterior seus olhos haviam se acostumado com a penumbra. O ar lhe parecia sufocante após o frescor da grande caverna. Natural, pensou ele, mas algo estava diferente. Uma leve dormência subia dos seus pés a cada passo e o vento fazia um som diferente aos seus ouvidos. Alguma coisa havia mudado, dentro dele, e não ao seu redor. Sua consciência do mundo ao seu redor estava maior, tudo parecia mais nítido aos seus olhos. Cada passo que dava ecoava nos seus ouvidos e cheiros distantes e sutis chegavam as suas narinas. Seus sentidos estavam afinados com o ambiente e isso lhe perturbou no início, mas aos poucos começou a se acostumar e controlar isso. Nos primeiros dias, no entanto, era perturbador e ele não conseguia entender o que tinha acontecido. Passou uma semana em claro a noite, pois o som da sua própria respiração lhe mantinha acordado e cada pedregulho do chão parecia uma faca espetando sua pele.
                Em poucos dias, porém, este incomodo mostrou ter o seu lado positivo. Na terceira noite, quando estava pronto para se deitar, sentiu um leve tremor no chão e um ruído distante, mas familiar, que lhe alertou de que algo ruim estava para acontecer. Juntou rapidamente suas coisas e procurou abrigo, olhando em volta o tempo todo, mas ainda sem encontrar nada ao alcance da sua visão. Encontrou uma grande pedra a alguns metros e se escondeu atrás dela, com seu robô, sem saber do que e porque, mas sentia que estava mais seguro ali. Por vários minutos ele se manteve atrás da pedra com os músculos retesados e a respiração rápida, olhando para o ponto de onde e veio e após algum tempo seus olhos captaram movimento sob a luz fraca da lua. Era um grupo de pessoas, diferentes das que ele já havia visto, elas andavam curvadas, com as mãos quase tocando o chão e a cabeça a frente do corpo, como se farejassem o ar a sua frente. Ele pode ouvi-los conversando sobre alguma coisa que haviam visto naquele local e soube que era dele que falavam. Pelo tom da conversa, não eram amistosos e não queriam apenas dividir o local de descanso com mais alguém. Sem perceber, ele arreganhou os dentes para eles de seu esconderijo e seu corpo se preparou para saltar, pronto a qualquer atitude agressiva dos estranhos. Após alguma discussão eles seguiram seu caminho para longe dali e Ralph se acalmou, a adrenalina deixando de atuar aos poucos e o corpo sendo tomado pela exaustão causada pela tensão nos músculos. Recostado na grande pedra, ele se acalmou e dormiu até o amanhecer.

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