Ralph guardou o
revólver pesado na cintura, sem saber ao certo o porque, já que a arma não
teria utilidade uma vez que ele não estava levando munição para ela. Por algum
motivo, o peso da arma na cintura lhe foi reconfortante e melhorou seu humor,
que ao contrário da maior parte do tempo, já se encontrava em bom estado. Ele
se observou um pouco com o revólver na cintura e se virou para seu companheiro
e deu uma volta, esperando uma opinião que sabia que não viria. Mesmo assim,
não pode deixar de se surpreender ao escutar o som das lentes sendo ajustadas ao
se virar de costas, com o revólver totalmente exposto para o robô. O rapaz deu
um leve sorriso e sentou novamente, tirando a arma da cintura e deixando-a
próxima a fogueira, observando o modo como o reflexo das chamas pareciam dançar
no barril e no cano da arma. O ronco do seu estômago lhe lembrou que não havia
comido ainda e preparou a janta.
Ao terminar de
comer, andou ao redor da praça, vendo as diferentes espécies de árvores que
conseguiram sobreviver ali. No centro da praça estava um enorme salgueiro,
maior do que qualquer coisa natural que ele já havia visto, com exceção,
talvez, do monólito. Se aproximou e tocou a árvore, e pode jurar que sentiu o
ar se adensar e um pulsar vindo do chão por um instante. Ao olhar em volta,
tudo continuava igual e ao mesmo tempo diferente. As cores pareciam mais vivas
e o ar mais fresco. Sem tirar a mão do tronco, deu a volta no salgueiro e viu
marcas do tempo e do homem. Pontos em que a casca era mais fina e algumas
cicatrizes deixadas por casais apaixonados. Mesmo após tanto tempo sob a terra,
a grande árvore parecia continuar crescendo lentamente. De uma de suas folhas
caiu uma gota que a terra absorveu rapidamente, mas não como a terra da
superfície que tem sede.
Subitamente, foi
acometido da necessidade de se aproximar mais da árvore e antes que pudesse
pensar, a abraçou. Não entendeu o motivo de fazer isso e não pensou no assunto,
pois o que sentiu foi a melhor sensação de sua vida. De repente ele era um com
a terra sob seus pés e o salgueiro nos seus braços. Ele via o vento e ouvia os
sussurros das árvores ao seu redor. E então, a tristeza de todas as coisas. O
planeta estava triste, machucado e a culpa era deles. Dos humanos. A culpa era
sua. Os sussurros se transformaram em vozes zangadas e a terra sob seus pés
queria suga-lo como havia feito com a gota de água. O terror tomou conta de seu
corpo. Aquilo não era algo para que estivesse preparado. Enfrentaria qualquer
inimigo, vivo ou escravizado, sem piscar, mas agora as lágrimas brotaram de
seus olhos e ele se sentiu indefeso. Ele sabia que iria ser punido ali, naquela
cidade subterrânea, pelos crimes da humanidade contra o planeta. E então,
quando as vozes passaram a gritar, e a força em suas pernas começava a falhar,
ele agarrou-se com mais força ao salgueiro e sentiu o calor de um abraço
retribuir o seu toque. Nesse instante as vozes se calaram e tudo se acalmou,
ele se sentia protegido, como se estivesse nos braços da mãe. Olhou para cima e
os galhos pareciam estar curvados ao seu redor, criando uma parede protetora.
Um leve tremor passou pelo tronco da árvore e avançou pelos galhos, fazendo-os
tremer e algumas folhas caírem. As vozes voltaram dessa vez, parecidas com
pedidos de desculpas envergonhados e o medo passou.
Aos poucos, ele se
afastou da grande árvore, mas a sensação de proximidade e o calor continuavam
presentes ao seu redor. Ele se afastou lentamente, com o respeito que o local
merecia, e reparou que havia flores pelo caminho. Pensou em pegar uma, mas
lembrou-se da fúria que havia presenciado a poucos instantes e mudou de ideia. Ao
chegar à borda da praça, assoviou por três segundos e esperou até que o pequeno
robô chegasse. Mandou que ele filmasse e tirasse fotos das árvores, mas sem
entrar no perímetro do parque. Sentiu que se uma máquina cruzasse aquela linha
que separava o que era fruto do homem e o que era fruto direto da terra, o
tênue equilíbrio existente naquela caverna acabaria e tudo desmoronaria, não só
metaforicamente. Esperou que a tarefa estivesse terminada e voltou para perto
da fogueira, que estava quase morrendo. Reavivou as chamas com algumas tábuas
de uma construção e entrou no seu saco de dormir. Demorou a dormir e naquela
noite seu sono foi agitado e cheio de sonhos que não compreendeu ao acordar.
Ao acordar, guardou
as coisas e comeu um pedaço de carne seca com um pouco de água. Havia muito
para contar e mostrar, era hora de voltar para casa. Juntou as coisas e saiu da
cidade. A luz do sol foi ofuscante por alguns instantes, pois no dia anterior
seus olhos haviam se acostumado com a penumbra. O ar lhe parecia sufocante após
o frescor da grande caverna. Natural, pensou ele, mas algo estava diferente.
Uma leve dormência subia dos seus pés a cada passo e o vento fazia um som
diferente aos seus ouvidos. Alguma coisa havia mudado, dentro dele, e não ao
seu redor. Sua consciência do mundo ao seu redor estava maior, tudo parecia
mais nítido aos seus olhos. Cada passo que dava ecoava nos seus ouvidos e
cheiros distantes e sutis chegavam as suas narinas. Seus sentidos estavam
afinados com o ambiente e isso lhe perturbou no início, mas aos poucos começou
a se acostumar e controlar isso. Nos primeiros dias, no entanto, era
perturbador e ele não conseguia entender o que tinha acontecido. Passou uma
semana em claro a noite, pois o som da sua própria respiração lhe mantinha
acordado e cada pedregulho do chão parecia uma faca espetando sua pele.
Em poucos dias,
porém, este incomodo mostrou ter o seu lado positivo. Na terceira noite, quando
estava pronto para se deitar, sentiu um leve tremor no chão e um ruído
distante, mas familiar, que lhe alertou de que algo ruim estava para acontecer.
Juntou rapidamente suas coisas e procurou abrigo, olhando em volta o tempo todo,
mas ainda sem encontrar nada ao alcance da sua visão. Encontrou uma grande
pedra a alguns metros e se escondeu atrás dela, com seu robô, sem saber do que
e porque, mas sentia que estava mais seguro ali. Por vários minutos ele se
manteve atrás da pedra com os músculos retesados e a respiração rápida, olhando
para o ponto de onde e veio e após algum tempo seus olhos captaram movimento
sob a luz fraca da lua. Era um grupo de pessoas, diferentes das que ele já
havia visto, elas andavam curvadas, com as mãos quase tocando o chão e a cabeça
a frente do corpo, como se farejassem o ar a sua frente. Ele pode ouvi-los
conversando sobre alguma coisa que haviam visto naquele local e soube que era
dele que falavam. Pelo tom da conversa, não eram amistosos e não queriam apenas
dividir o local de descanso com mais alguém. Sem perceber, ele arreganhou os
dentes para eles de seu esconderijo e seu corpo se preparou para saltar, pronto
a qualquer atitude agressiva dos estranhos. Após alguma discussão eles seguiram
seu caminho para longe dali e Ralph se acalmou, a adrenalina deixando de atuar
aos poucos e o corpo sendo tomado pela exaustão causada pela tensão nos
músculos. Recostado na grande pedra, ele se acalmou e dormiu até o amanhecer.
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