Ao entrar em casa, ouviu o som de passos rápidos e leves vindo em sua
direção e ao se virar, seu irmão pulou nos seus braços, derrubando os dois no
chão. As risadas logo invadiram a casa enquanto os irmãos se abraçavam, matando
a saudade um do outro. Ralph conseguia, mesmo nos dias mais monótonos de suas
explorações, manter a cabeça ocupada, sem pensar na volta para casa, mas ao
voltar, não pensava na próxima saída.
Diferente de quando
fazia suas explorações, ao chegar em casa Ralph conversava por horas a fio com
seu irmão e sua mãe. Sentado no piso da cozinha, de pés descalços, ele ficava
em dia com os assuntos e falava das novidades. Sua mãe se escorava no balcão e
seu irmão sentava ao seu lado em um banco de madeira. Os irmãos, não fosse a
diferença de idade, o mais novo com cinco anos a menos, seriam gêmeos, tamanha
era a semelhança entre eles. A principal diferença estava nos cabelos, que no
mais novo caiam até os ombros e ficavam normalmente presos em um rabo de cavalo
desajeitado, sempre a ponto de se desfazer. A mãe, de cabelos castanhos e
ondulados chegando até o meio das costas, era um pouco mais baixa que Ralph, de
feições carinhosas, mas sempre firme em suas decisões. Era alguns centímetros
mais baixa que ele, mas seu ar de autoridade ultrapassava em muito qualquer
limite imposto pela altura.
Até tarde da noite
eles conversaram e trocaram histórias do tempo que passaram separados. Em certo
momento, Ralph colocou a mão no bolso e sentiu algo estranho, que não lembrava
de ter colocado ali. Ao olhar o que era, viu uma folha de um verde intenso,
igual as que havia visto na praça. Sem pensar duas vezes, chamou a atenção do
irmão e entregou-lhe a folha para que guardasse sempre consigo. Ralph não
perguntou sobre o pai, pois ele havia saído em uma expedição a mais tempo para
investigar um suposto rio muitos quilômetros ao norte. As viagens de ida e
volta deveriam durar dois meses cada, mas ele ainda tinha a missão de examinar
a extensão, largura, possíveis passagens e tudo mais relacionado ao rio que
pudesse ser benéfico para a cidade.
No outro dia, Ralph
levantou tarde, mas renovado, pronto para a próxima missão. Ao acordar, a casa
estava vazia, pois sua mãe e irmão acordaram ao nascer do sol para cumprirem
suas tarefas, como de costume. Não comeu nada, pois já era quase hora do almoço
na cozinha comunitária, e saiu de casa para ver que o sol já estava quase no
seu ponto máximo. Enquanto estava na cidade, costumava ficar sempre descalço,
mesmo nos meses frios, e dessa vez não foi diferente, porém dessa vez não era
apenas força do hábito, mas uma necessidade que ele não entendia bem. Ao sair
para a rua de chão batido ouviu chamarem seu nome a alguns metros de distância.
Se virou para a voz e reconheceu a irmã de Ian, Kayla, sua amiga desde a
infância. Ela era poucos centímetros mais alta que Ralph, com os cabelos
compridos negros como os do irmão, porém lisos e bem cuidados, ao contrário do
emaranhados de fios do parente. A pele branca, mas não pálida, fazia com que
seus lábios vermelhos fossem mais realçados, dando-lhe um ar de mistério e
acentuando sua beleza.
O rapaz caminhou
até ela que aguardava escorada na parede de uma casa próxima, com um sorriso
travesso. Ela estendeu a mão para que ela a cumprimentasse e quando sentiu o
toque dele, puxou-o com força para um abraço apertado que ele recebeu e
retribuiu com prazer. Um pouco de calor humano depois de tanto tempo, pensou
ele, não é ruim afinal. Eles trocaram notícias e ele ficou sabendo que Ian
havia anunciado a todos, na primeira hora da manhã, o trágico destino de Hohl e
já estava fazendo os preparativos para a exploração da cidade subterrânea,
sendo ele próprio o líder da campanha. Eles passaram o almoço juntos e à tarde ele
a acompanhou até a oficina, enquanto ela fazia ajustes de rotina no robô
companheiro de Ralph. Kayla o havia construído e não deixava que ninguém mais o
tocasse, tanto pela sua programação quanto pela disposição dos mecanismos
internos. Ao final do dia, os consertos e ajustes estavam prontos, e ela passou
um último recado de seu irmão: Ralph deveria se apresentar pela manhã no Centro
de Informações.
Nenhum comentário:
Postar um comentário