Após alguns dias de
viagem, chegou de volta ao lugar que chamava de casa. Como sempre, não foi
recepcionado por ninguém, todos estavam ocupados com seus afazeres já que o sol
ainda estava alto. Isso não lhe incomodou, pois sabia que de um modo ou de
outro todos ali arriscavam suas vidas para o bem de todos e ele estava apenas
cumprindo seu trabalho. De qualquer maneira, voltar para aquele lugar sempre
lhe dava uma sensação de segurança e tranquilidade, pois estava entre amigos e
família. A Asa, como o vilarejo era chamado por seus habitantes, podia ser
vista de vários quilômetros, pois era situada no topo de uma colina e suas
torres de vigilância se erguiam a vários metros com suas potentes luzes a
vasculhar o perímetro ao redor da cidadezinha. Uma grade enferrujada cercava a
Asa, com dois portões, localizados nas duas extremidades da rua principal,
delimitada por diversas casas simples de madeira, todas cinzentas e de um andar.
Paralelas à rua principal, duas ruas corriam com acesso para mais casas do
mesmo padrão, completando um total de três fileiras de casas para cada lado da
rua principal, com as casas das ruas laterais de frente umas para as outras, com
as ultimas tendo dois andares e a cerca como limite. Nessas casas a parte
traseira não possuía janelas, exceto pelo segundo andar, onde as janelas eram
usadas como pontos de observação extra para a aproximação de inimigos.
A subida para a
entrada era ladeada por uma pequena plantação de trigo que circundava a cidade
e de onde boa parte do alimento era retirada. Uma reserva subterrânea de água
havia sido o principal motivo para as primeiras instalações da Asa naquele
local. Com essa água, eles irrigavam a pequena plantação e tinham o que beber.
Um pequeno pasto na planície próxima da cidade garantia que houvesse carne de
um pequeno rebanho de gado, mantido sempre com um número mínimo de animais para
que não houvesse escassez em tempos difíceis.
Durante o dia, o
reflexo dos painéis solares no topo das casas tornava a cidade brilhante quando
vista de longe. Os painéis forneciam toda energia necessária para o bom
funcionamento da cidade. Durante o dia, pouquíssimas lâmpadas eram ligadas e
apenas ferramentas essenciais eram usadas. A energia do dia era acumulada em
grandes baterias subterrâneas e então usada para acender os grandes holofotes
de vigilância à noite e direcionada também as casas, para proporcionar algum
conforto.
Entrando na cidade,
cumprimentou algumas pessoas, mas seguiu sem paradas até a construção que
servia como centro de informações. Sendo um misto de biblioteca, laboratório e
centro de comunicações, era o cérebro da Asa e todos que faziam reconhecimento
ou algum tipo de pesquisa, exibiam seus relatórios ali para análise e
arquivamento. Sendo constituída de quatro salas, sendo a principal também a
central, tinha todas as paredes revestidas de estantes com livros, mapas feitos
a mão e listas com os nomes de todos da cidade e seus afazeres. Em frente a
porta de entrada, uma grande mesa com pilhas de relatórios e mapas dava as boas
vindas a quem entrava, junto com uma plaqueta onde se lia “Ian Samuel”. Detrás
dos papéis, se via os cabelos pretos revoltos do comandante daquele reduto.
Ralph bateu continência em frente à mesa para obter atenção para a entrega de
seu relatório. Demorado um instante, um homem com cabelos caindo sobre os olhos
também pretos e de ar cansado levantou a cabeça, revelando rosto e nariz finos,
lábios vermelhos e a pele muito clara de quem se expõe pouco ao sol. Por alguns
segundos ele observou o rapaz em pé a sua frente, como se vasculhasse sua
extensa libraria mental a procura da sua identidade, e então lhe deu um aceno
de cabeça ao mesmo tempo em que disse “Ralph”.
Esse era o sinal para que o rapaz pudesse fazer seu relatório da
expedição.
Durante horas ele
deu um relatório falado de tudo que havia encontrado pelo caminho. Descreveu
com detalhes a cidade subterrânea e demonstrou que seria inteligente enviar uma
patrulha para aproveitar melhor os recursos disponíveis no local. Falou da
presença de árvores diversas, mas omitiu sua experiência extraordinária, pois
sabia que seria desacreditado imediatamente. Deixou registrado o grupo de
pessoas que agiam de modo estranho e descobriu que era o primeiro a vê-los. Descarregou
os arquivos do robô para mostrar as fotos e a rota que havia feito para
mapeamento. Quando terminou o relatório, se despediu com uma espécie de
reverência, curvando-se um pouco para frente e saiu. Já era noite e a rua
estava iluminada por algumas luminárias distantes, deixando tudo na penumbra.
Assim, entre sombras, ele seguiu até sua casa e para maior alegria, para sua
cama.
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