sábado, 4 de agosto de 2012

Crônicas da Nova Era - IX


                Após alguns dias de viagem, chegou de volta ao lugar que chamava de casa. Como sempre, não foi recepcionado por ninguém, todos estavam ocupados com seus afazeres já que o sol ainda estava alto. Isso não lhe incomodou, pois sabia que de um modo ou de outro todos ali arriscavam suas vidas para o bem de todos e ele estava apenas cumprindo seu trabalho. De qualquer maneira, voltar para aquele lugar sempre lhe dava uma sensação de segurança e tranquilidade, pois estava entre amigos e família. A Asa, como o vilarejo era chamado por seus habitantes, podia ser vista de vários quilômetros, pois era situada no topo de uma colina e suas torres de vigilância se erguiam a vários metros com suas potentes luzes a vasculhar o perímetro ao redor da cidadezinha. Uma grade enferrujada cercava a Asa, com dois portões, localizados nas duas extremidades da rua principal, delimitada por diversas casas simples de madeira, todas cinzentas e de um andar. Paralelas à rua principal, duas ruas corriam com acesso para mais casas do mesmo padrão, completando um total de três fileiras de casas para cada lado da rua principal, com as casas das ruas laterais de frente umas para as outras, com as ultimas tendo dois andares e a cerca como limite. Nessas casas a parte traseira não possuía janelas, exceto pelo segundo andar, onde as janelas eram usadas como pontos de observação extra para a aproximação de inimigos.
                A subida para a entrada era ladeada por uma pequena plantação de trigo que circundava a cidade e de onde boa parte do alimento era retirada. Uma reserva subterrânea de água havia sido o principal motivo para as primeiras instalações da Asa naquele local. Com essa água, eles irrigavam a pequena plantação e tinham o que beber. Um pequeno pasto na planície próxima da cidade garantia que houvesse carne de um pequeno rebanho de gado, mantido sempre com um número mínimo de animais para que não houvesse escassez em tempos difíceis.
                Durante o dia, o reflexo dos painéis solares no topo das casas tornava a cidade brilhante quando vista de longe. Os painéis forneciam toda energia necessária para o bom funcionamento da cidade. Durante o dia, pouquíssimas lâmpadas eram ligadas e apenas ferramentas essenciais eram usadas. A energia do dia era acumulada em grandes baterias subterrâneas e então usada para acender os grandes holofotes de vigilância à noite e direcionada também as casas, para proporcionar algum conforto.
                Entrando na cidade, cumprimentou algumas pessoas, mas seguiu sem paradas até a construção que servia como centro de informações. Sendo um misto de biblioteca, laboratório e centro de comunicações, era o cérebro da Asa e todos que faziam reconhecimento ou algum tipo de pesquisa, exibiam seus relatórios ali para análise e arquivamento. Sendo constituída de quatro salas, sendo a principal também a central, tinha todas as paredes revestidas de estantes com livros, mapas feitos a mão e listas com os nomes de todos da cidade e seus afazeres. Em frente a porta de entrada, uma grande mesa com pilhas de relatórios e mapas dava as boas vindas a quem entrava, junto com uma plaqueta onde se lia “Ian Samuel”. Detrás dos papéis, se via os cabelos pretos revoltos do comandante daquele reduto. Ralph bateu continência em frente à mesa para obter atenção para a entrega de seu relatório. Demorado um instante, um homem com cabelos caindo sobre os olhos também pretos e de ar cansado levantou a cabeça, revelando rosto e nariz finos, lábios vermelhos e a pele muito clara de quem se expõe pouco ao sol. Por alguns segundos ele observou o rapaz em pé a sua frente, como se vasculhasse sua extensa libraria mental a procura da sua identidade, e então lhe deu um aceno de cabeça ao mesmo tempo em que disse “Ralph”.  Esse era o sinal para que o rapaz pudesse fazer seu relatório da expedição.
                Durante horas ele deu um relatório falado de tudo que havia encontrado pelo caminho. Descreveu com detalhes a cidade subterrânea e demonstrou que seria inteligente enviar uma patrulha para aproveitar melhor os recursos disponíveis no local. Falou da presença de árvores diversas, mas omitiu sua experiência extraordinária, pois sabia que seria desacreditado imediatamente. Deixou registrado o grupo de pessoas que agiam de modo estranho e descobriu que era o primeiro a vê-los. Descarregou os arquivos do robô para mostrar as fotos e a rota que havia feito para mapeamento. Quando terminou o relatório, se despediu com uma espécie de reverência, curvando-se um pouco para frente e saiu. Já era noite e a rua estava iluminada por algumas luminárias distantes, deixando tudo na penumbra. Assim, entre sombras, ele seguiu até sua casa e para maior alegria, para sua cama.

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